Vamos analisar estritamente com base no texto do Credo Atanasiano, observando o que ele afirma sobre Jesus Cristo em relação à Divindade e à Trindade.
1) O Credo começa definindo o quadro trinitário
Antes de falar diretamente de Cristo encarnado, o credo estabelece uma estrutura teológica:
“Venerar um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, sem confundir as pessoas e sem dividir a substância.”
Aqui estão dois princípios fundamentais:
✔ Distinção de pessoas
- Pai ≠ Filho ≠ Espírito Santo
✔ Unidade de substância
- Não são três deuses
- Há uma única divindade
Esse é o ambiente teológico no qual Jesus é apresentado.
2) O que o Credo afirma sobre a Divindade do Filho
O texto é enfático:
“Qual o Pai, tal o Filho…”
“Incriado é o Pai, incriado o Filho…”
“Eterno o Pai, eterno o Filho…”
“O Pai é Deus, o Filho é Deus…”
“O Pai é onipotente, o Filho é onipotente…”
O que isso significa segundo o próprio texto?
2.1 O Filho possui todos os atributos divinos
O Credo atribui ao Filho:
- Eternidade
- Incriação
- Imensidão
- Onipotência
- Divindade plena
Portanto, Jesus não é apresentado como ser criado ou inferior em essência, mas como possuidor da mesma natureza divina do Pai.
3) O Filho é “gerado”, não criado
O Credo diz:
“O Filho é só do Pai; não feito, nem criado, mas gerado.”
Aqui há uma distinção importante:
- ❌ Não feito
- ❌ Não criado
- ✔ Gerado
O texto não explica o mecanismo dessa geração, mas faz questão de negar que seja criação.
Mais adiante:
“É Deus, gerado da substância do Pai antes dos séculos.”
Isso indica:
- A geração é anterior ao tempo
- Não se refere ao nascimento em Maria
- Está relacionada à própria substância divina
Ou seja…
O uso do termo “gerado” no Credo, embora intencione distinguir o Filho de algo “feito” ou “criado”, acaba deixando o texto um tanto confuso e não completamente claro, pois não explica em que sentido essa geração ocorre. O Credo afirma que o Filho é “gerado da substância do Pai antes dos séculos”, negando que seja criado, mas não define como essa geração pode ser eterna sem implicar anterioridade ou causalidade temporal — especialmente quando também declara que “nada é anterior ou posterior” na Trindade. Assim, o termo parece querer afirmar uma relação de origem pessoal sem indicar começo no tempo, porém a falta de explicitação conceitual pode gerar tensão lógica no próprio texto, tornando a formulação aberta a interpretações distintas sobre a natureza dessa “geração”.
4) Igualdade e distinção
O Credo afirma:
“Nada é anterior ou posterior, nada maior ou menor.”
Logo, segundo o texto:
- O Filho não é posterior ao Pai
- O Filho não é menor que o Pai
- Há coeternidade
- Há igualdade absoluta quanto à divindade
Mas também diz:
“Uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho…”
Portanto:
- Há distinção pessoal
- Há igualdade essencial
5) A Encarnação: Deus e Homem
Depois de estabelecer a plena divindade do Filho, o Credo passa à encarnação:
“Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem.”
Ele desenvolve isso em duas naturezas:
5.1 Quanto à divindade:
“Gerado da substância do Pai antes dos séculos.”
5.2 Quanto à humanidade:
“Nascido no mundo da substância da mãe.”
Ou seja:
- Divindade eterna
- Humanidade histórica
6) Igual ao Pai e menor que o Pai
O texto diz:
“Igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade.”
Isso resolve uma possível tensão:
- Jesus é igual ao Pai quanto à natureza divina
- É menor quanto à condição humana assumida
Portanto, a inferioridade não é ontológica, mas relacionada à encarnação.
7) União sem confusão
O Credo afirma:
“Não por conversão da divindade em carne, mas pela assunção da humanidade em Deus.”
Isso significa:
- A divindade não virou humanidade
- A humanidade foi assumida
E ainda:
“Não por confusão de substância, mas por unidade de pessoa.”
Logo:
- Duas naturezas
- Uma única pessoa
8) Cristo único mediador da salvação
O Credo conecta cristologia e salvação:
“O qual padeceu pela nossa salvação…”
Ele descreve:
- Paixão
- Descida aos infernos
- Ressurreição
- Ascensão
- Juízo futuro
Tudo atribuído à única pessoa de Cristo.
9) Em resumo: o que o Credo ensina sobre Jesus
Com base exclusivamente no texto, o Credo ensina que:
1️⃣ Jesus é plenamente Deus
Possui todos os atributos divinos.
2️⃣ Jesus não é criatura
É gerado, não criado.
3️⃣ Jesus é coeterno ao Pai
Nada anterior ou posterior.
4️⃣ Jesus é distinto do Pai
Outra pessoa.
5️⃣ Jesus é plenamente homem
Assumiu humanidade real.
6️⃣ Jesus é uma única pessoa
Duas naturezas, uma pessoa.
7️⃣ Sua obra é central para a salvação
Ele sofre, ressuscita e julga.
Conclusão Teológica do Texto
O Credo constrói uma cristologia que:
- Defende a unidade absoluta da Divindade
- Afirma distinção pessoal na Trindade
- Sustenta igualdade essencial entre Pai, Filho e Espírito
- Rejeita qualquer ideia de que o Filho seja criatura
- Explica a encarnação como união de duas naturezas numa só pessoa
Em relação à Divindade e Trindade, o Credo coloca Jesus:
- Dentro da única essência divina
- Em igualdade eterna com o Pai
- Em distinção pessoal
- E como Deus encarnado para a salvação
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