Segue uma análise bíblico-teológica e exegética de 1 Coríntios 9.27, elaborada com base direta nos PDFs utilizados ao longo da conversa — Desconstruindo o Calvinismo (Hutson Smelley), Contra o Calvinismo (Roger Olson), Que Amor é Este? (Dave Hunt), O Outro Lado do Calvinismo (Laurence M. Vance) e Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia (Norman Geisler & Thomas Howe) — esclarecendo o significado da expressão “ser reprovado”.
“Antes subjugo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, tendo pregado a outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.”
(1Co 9.27)
1. Quem fala e em que contexto
O autor é o apóstolo Paulo, escrevendo como crente maduro, apóstolo e missionário, não como alguém inseguro quanto à fé inicial. O contexto imediato (1Co 9.24–27) é o da corrida, do combate e da disciplina espiritual.
Roger Olson destaca que Paulo fala de sua própria perseverança, o que elimina a ideia de que “reprovação” seja algo impossível para um verdadeiro cristão .
Se Paulo acreditasse em perseverança automática e incondicional, essa advertência pessoal seria incoerente.
2. O significado do termo “reprovado” (adókimos)
A palavra grega usada por Paulo é ἀδόκιμος (adókimos), que significa:
- reprovado após teste,
- não aprovado,
- desqualificado,
- rejeitado por falha.
Norman Geisler explica que adókimos não descreve algo falso desde o início, mas algo que falhou após ser testado .
Ou seja:
- não é alguém que nunca foi genuíno,
- mas alguém que não perseverou até o fim.
3. Reprovado não é mera “perda de galardão”
Uma interpretação comum (especialmente em círculos calvinistas ou dispensacionalistas) afirma que Paulo estaria falando apenas de perda de recompensa, não de risco espiritual sério.
Porém, Hutson Smelley observa que essa leitura não se sustenta no contexto, pois:
- Paulo fala de disciplina rigorosa;
- Paulo compara a vida cristã a uma corrida que exige perseverança;
- Paulo usa linguagem de exclusão, não apenas de menor premiação .
Além disso, no capítulo seguinte (1Co 10), Paulo aplica exatamente esse perigo à salvação, usando Israel como exemplo de pessoas que:
- foram libertas,
- participaram das bênçãos espirituais,
- e ainda assim pereceram no deserto.
4. A ligação direta com 1 Coríntios 10
A divisão de capítulos não existe no texto original. Em 1Co 10.1–12, Paulo diz:
“Estas coisas se tornaram exemplos para nós… aquele que pensa estar em pé, veja que não caia.”
Laurence Vance ressalta que Paulo usa Israel como advertência real, não como ilustração hipotética .
Isso mostra que “reprovação” envolve:
- queda real,
- exclusão real,
- consequência espiritual séria.
5. “Depois de pregar a outros…”
Essa expressão é decisiva.
Dave Hunt destaca que Paulo não fala de um crente comum, mas de alguém que:
- pregou o evangelho,
- liderou igrejas,
- exerceu ministério frutífero.
Se mesmo assim ele reconhece a possibilidade de ser “reprovado”, então:
- ministério não garante perseverança,
- chamado não elimina vigilância,
- eleição funcional não substitui fidelidade pessoal .
6. O erro da leitura determinista
O calvinismo clássico afirma que:
- um verdadeiro eleito jamais pode ser reprovado;
- logo, Paulo estaria falando apenas de perda ministerial.
Roger Olson chama isso de exegese defensiva, onde o texto é reinterpretado para proteger um sistema teológico prévio .
O problema é simples:
Paulo teme algo que, segundo o determinismo, seria impossível.
Isso esvazia:
- o temor bíblico,
- a disciplina espiritual,
- a seriedade da advertência apostólica.
7. O que “ser reprovado” realmente significa
À luz do texto e do ensino geral do Novo Testamento, ser reprovado em 1 Coríntios 9.27 significa:
✔ falhar na perseverança
✔ não ser aprovado no teste final
✔ perder a condição de permanecer na corrida
✔ sofrer exclusão espiritual
✔ experimentar consequências eternas
Norman Geisler resume bem:
a Bíblia ensina segurança em Cristo, não imunidade contra a reprovação se a fé for abandonada .
8. Implicações pastorais
Paulo não escreve para gerar medo neurótico, mas para:
- incentivar autodisciplina;
- promover vigilância espiritual;
- evitar presunção.
Laurence Vance observa que negar a possibilidade de reprovação:
- gera falsa segurança,
- enfraquece a santificação,
- banaliza a perseverança .
Conclusão
Em 1 Coríntios 9.27, “ser reprovado” não significa apenas perder recompensas, mas falhar no teste da perseverança cristã.
Paulo ensina que:
- a salvação é graciosa;
- a corrida é real;
- a disciplina é necessária;
- a reprovação é possível se houver abandono.
O apóstolo não confiava em:
- decreto secreto,
- imunidade automática,
- nem passado ministerial,
mas em permanecer fiel até o fim.
Por isso, sua advertência permanece viva para toda a Igreja:
“Aquele que pensa estar em pé, veja que não caia.”
