O Salomão Efeminado de EG White e Rodrigo Silva

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Ao comentar a vida de Salomão, Rodrigo Silva afirma que:

“… O rei teria experimentado prazeres das mais diversas formas… provavelmente até com homens”.

A declaração ganha importância porque Rodrigo Silva é pastor adventista, teólogo e arqueólogo, e sua interpretação guarda relação temática com uma descrição encontrada nos escritos de Ellen G. White. Em Profetas e Reis, ao tratar da decadência de Salomão, ela escreveu que o rei tornou-se “um libertino” e que seu caráter, antes “nobre e viril”, tornou-se “debilitado e efeminado”. A passagem consta no acervo dos escritos de Ellen White. No capítulo 3 do livro Profetas e Reis, intitulado “O Orgulho da Prosperidade”, Ellen White de fato usa explicitamente o termo “efeminado” ao descrever a decadência moral de Salomão. O trecho exato na tradução oficial em português diz:

“Depois de haver sido um dos maiores reis que já empunharam um cetro, Salomão tornou-se um libertino, instrumento e escravo de outros. Seu caráter, outrora nobre e viril, tornou-se debilitado e efeminado.“

O que a Bíblia realmente afirma sobre Salomão

A Escritura não procura esconder a decadência moral e espiritual do rei. Pelo contrário, 1 Reis apresenta seus excessos de maneira bastante explícita:

“E o rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras […] E tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração.”
1 Reis 11:1,3

O texto identifica precisamente o objeto de seus relacionamentos amorosos e sexuais: mulheres. E não poucas. O autor menciona setecentas mulheres e trezentas concubinas.

Logo depois, a Escritura explica novamente a origem de sua corrupção:

“Porque sucedeu que, no tempo da velhice de Salomão, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses.”
1 Reis 11:4

O texto bíblico poderia ter mencionado outros relacionamentos caso fossem relevantes para explicar sua decadência. Entretanto, quando apresenta especificamente sua vida afetiva, sexual e religiosa, menciona reiteradamente suas mulheres.

“Tudo quanto desejaram os meus olhos”

Provavelmente uma das passagens utilizadas para construir a ideia de que Salomão experimentou absolutamente todas as modalidades imagináveis de prazer seja Eclesiastes:

“E tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma.”
Eclesiastes 2:10

Mas existe um princípio básico de interpretação bíblica: o contexto determina o alcance das palavras.

Nos versículos anteriores, o autor explica aquilo que estava experimentando: construiu casas, plantou vinhas, fez jardins, adquiriu servos, acumulou rebanhos, prata, ouro, cantores e outras manifestações de riqueza, poder e prazer (Ec 2:4–10).

Portanto, transformar a expressão “tudo quanto desejaram os meus olhos” numa autorização para acrescentar qualquer prática sexual imaginável é extrapolar o texto.

Se alguém disser:

“Salomão entregou-se intensamente aos prazeres”,
há fundamento bíblico.

Se disser:

“Salomão teve centenas de mulheres e concubinas”,
há fundamento bíblico.

Se disser:

“Salomão entregou-se à idolatria influenciado por suas mulheres estrangeiras”,
há fundamento bíblico.

Mas quando se acrescenta:

“provavelmente até com homens”,

já abandonamos aquilo que o texto afirma e entramos no campo da conjectura.

Ellen G. White e o “Salomão efeminado”

Nossa pergunta é exclusivamente bíblica:

Onde a Bíblia chama Salomão de efeminado no sentido proposto? Onde afirma que ele procurou prazer sexual com homens?

Não existe tal passagem.

Se Rodrigo Silva entende a descrição de Ellen White em sentido amplo e chega à possibilidade de Salomão ter buscado prazer “até com homens”, essa conclusão precisa ser submetida à autoridade das Escrituras — e a Escritura não fornece essa informação.

Uma interpretação não pode transformar silêncio em evidência

Aqui está o problema hermenêutico fundamental.

A expressão “provavelmente” não resolve a dificuldade. Na realidade, demonstra que estamos diante de uma inferência, e não de uma declaração bíblica.

Existe uma diferença enorme entre:

possibilidade → probabilidade → afirmação textual.

Algo ser imaginavelmente possível não significa que seja historicamente provável. E algo considerado provável por um intérprete não significa que esteja ensinado nas Escrituras. Não podemos preencher o silêncio bíblico com especulação e depois utilizar essa especulação para reconstruir a vida moral de um personagem histórico.

A Bíblia não esconde os pecados de seus personagens

Outro aspecto enfraquece ainda mais essa interpretação.

A Bíblia é surpreendentemente franca ao registrar os pecados de seus grandes personagens.

Ela registra o adultério de Davi e o homicídio de Urias (2Sm 11); relata o episódio sexual de Judá e Tamar (Gn 38); descreve o estupro cometido por Amnom contra Tamar (2Sm 13); apresenta a imoralidade de Sodoma (Gn 19); e denuncia diversas formas de pecado sexual em outros contextos.

E quando chega a Salomão, também não ameniza sua situação.

A Bíblia registra:

700 mulheres.
300 concubinas.
Sensualidade.
Poligamia.
Casamentos com mulheres estrangeiras.
Idolatria.
Sincretismo religioso.
Construção de altares para deuses pagãos.
Desobediência direta ao Senhor.

Por que, então, deveríamos acrescentar outro comportamento sexual que o texto inspirado simplesmente não menciona?

Os pecados reais de Salomão já são suficientemente graves

Não precisamos aumentar artificialmente a lista.

Deuteronômio já advertira especificamente que o rei:

“Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração não se desvie.”
Deuteronômio 17:17

É exatamente aquilo que acontece posteriormente:

“E tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração.”
1 Reis 11:3

A correspondência é impressionante.

Deuteronômio: não multiplique mulheres, para que seu coração não se desvie.

1 Reis: Salomão multiplicou mulheres, e elas desviaram seu coração.

Essa é a explicação inspirada para sua decadência.

Não precisamos procurar outra.

Ellen White não pode preencher aquilo que a Bíblia não revelou

Aqui reside uma questão especialmente importante para a apologética adventista. Para o cristão comprometido com a suficiência das Escrituras, qualquer declaração extrabíblica deve ser julgada pela Bíblia, e não o contrário. Se Ellen G. White descreve Salomão de determinada maneira, isso não nos concede autorização para ler essa descrição retroativamente dentro de 1 Reis ou Eclesiastes. Muito menos podemos partir de uma declaração extrabíblica e procurar possibilidades dentro dos silêncios da Escritura para sustentá-la.

O caminho hermenêutico precisa ser inverso:

Primeiro: o que diz a Bíblia?

Depois:

A interpretação apresentada encontra fundamento nela?

Nesse caso específico, a Bíblia descreve extensamente a decadência sexual e espiritual de Salomão, mas não afirma que ele manteve relações sexuais com homens.

“Não ultrapasseis o que está escrito”

Paulo escreveu:

“Não ultrapasseis o que está escrito.”
1 Coríntios 4:6

O contexto imediato dessa passagem possui sua própria finalidade, mas a advertência expressa bem uma disciplina indispensável à apologética: não conferir autoridade bíblica às nossas conjecturas.

Também permanece válido o princípio de Deuteronômio:

“As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre.”
Deuteronômio 29:29

Deus revelou bastante sobre Salomão.

Revelou sua sabedoria.

Revelou sua riqueza.

Revelou suas mulheres.

Revelou suas concubinas.

Revelou sua idolatria.

Revelou sua apostasia.

Revelou as consequências de sua desobediência.

Mas não revelou que Salomão manteve relações sexuais com homens.

Conclusão

A questão não é defender Salomão. Sua decadência foi gravíssima e está registrada de maneira inequívoca nas Escrituras. O problema é atribuir-lhe aquilo que a própria Escritura não atribui. A declaração de que Salomão buscou prazeres “provavelmente até com homens” pode constituir uma interpretação ou conjectura de Rodrigo Silva, mas não pode ser apresentada como conclusão extraída naturalmente do texto bíblico.

E aqui está justamente a diferença entre exegese e especulação.

A exegese pergunta: “O que está escrito?”

A especulação pergunta: “O que poderia ter acontecido?”

Para a apologética cristã, a primeira pergunta deve governar a segunda. Portanto, ainda que Ellen G. White tenha escrito que o caráter de Salomão tornou-se “debilitado e efeminado”, e ainda que Rodrigo Silva faça uma interpretação mais abrangente acerca dos prazeres experimentados pelo rei, permanece um fato incontornável: não existe um único versículo que afirme que Salomão buscou relações sexuais com homens.

Quando a Bíblia denuncia Salomão, devemos denunciá-lo naquilo que ela denuncia. Quando a Bíblia se cala, não devemos transformar conjecturas em história bíblica.

A Escritura é nossa regra de fé — não a imaginação do intérprete.

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