Introdução
A doutrina dos decretos de Deus costuma ser apresentada, em sistemas deterministas, como um plano eterno e exaustivo no qual todos os eventos, atos e decisões humanas são causalmente determinados pela vontade divina. Contudo, os PDFs analisados demonstram que tal concepção não é exigida pela Escritura e produz sérias tensões teológicas, morais e pastorais.
A Bíblia ensina, sim, que Deus tem decretos soberanos. O que ela não ensina é que esses decretos operem de modo fatalista, anulando a liberdade humana ou tornando Deus o autor do pecado. O indeterminismo bíblico — entendido como a existência de decisões humanas não causalmente determinadas por Deus — oferece uma leitura mais coerente do testemunho bíblico.
1. O que a Bíblia entende por decretos de Deus
Biblicamente, os decretos de Deus dizem respeito a:
- Seus propósitos redentores,
- Seu plano soberano em Cristo,
- Suas decisões infalíveis quanto ao fim da história.
Hutson Smelley observa que a Escritura fala dos decretos de Deus em termos teleológicos (de finalidade), não como um mecanismo causal que produza cada ato humano .
Deus decreta o que realizará, não necessariamente como cada agente moral agirá em todos os detalhes.
2. Determinismo versus indeterminismo bíblico
Roger Olson distingue claramente soberania de determinismo. Segundo ele, afirmar que Deus é soberano não exige que todas as decisões humanas sejam causalmente determinadas por Ele .
O indeterminismo bíblico sustenta que:
- Deus governa a história;
- conhece infalivelmente o futuro;
- mas permite decisões humanas reais, contingentes e responsáveis.
Isso preserva tanto a soberania divina quanto a responsabilidade moral humana.
3. Decretos divinos e liberdade humana
Os PDFs enfatizam que a Bíblia apresenta decretos divinos que:
- estabelecem limites (Gn 50.20; At 2.23),
- redirecionam ações humanas,
- incorporam decisões livres ao plano soberano.
Laurence Vance destaca que Deus frequentemente responde às ações humanas na narrativa bíblica, algo incoerente com um decreto determinista exaustivo .
Se todas as ações fossem decretadas causalmente, arrependimento, mudança, intercessão e advertência seriam ilusórios.
4. Os decretos e o problema do mal
Um dos pontos mais críticos tratados nos PDFs é a relação entre decretos deterministas e o mal.
Dave Hunt argumenta que, se Deus decretou causalmente todas as ações, então:
- o pecado ocorre por decreto,
- o mal existe porque Deus quis que existisse dessa forma,
o que contradiz frontalmente textos como Tiago 1.13 .
O indeterminismo bíblico resolve esse dilema ao afirmar que:
- Deus permite o mal,
- não o decreta causalmente,
- e o julga justamente porque ele procede de agentes morais livres.
5. Decretos condicionais na Escritura
A Bíblia apresenta decretos condicionais e relacionais, não apenas absolutos e incondicionais:
- “Se ouvirdes hoje a sua voz…”
- “Se permanecerdes na fé…”
- “Se não vos arrependerdes…”
Norman Geisler observa que tais declarações seriam incoerentes se o futuro estivesse fixado de maneira causal e imutável .
Isso não enfraquece os decretos de Deus, mas revela sua sabedoria relacional.
6. Decretos, presciência e contingência
Os PDFs defendem que a presciência divina não causa os eventos conhecidos.
Smelley afirma que confundir presciência com predeterminação causal é um erro filosófico comum na teologia determinista .
Deus pode conhecer infalivelmente:
- o que acontecerá,
- sem ser o causador determinante de cada escolha.
7. Implicações pastorais do indeterminismo bíblico
Laurence Vance demonstra que sistemas deterministas tendem a produzir:
- fatalismo espiritual,
- passividade moral,
- enfraquecimento da oração e da evangelização .
Já o indeterminismo bíblico:
- dá sentido real à oração,
- sustenta o chamado ao arrependimento,
- preserva a seriedade das advertências,
- fortalece a ética cristã.
Conclusão
À luz da Escritura e da análise consistente dos PDFs utilizados, conclui-se que:
- Deus possui decretos soberanos e infalíveis;
- Esses decretos não operam de forma fatalista;
- A Bíblia ensina um modelo indeterminista, no qual:
- Deus governa sem coagir,
- decreta fins sem determinar causalmente todos os meios,
- realiza seu plano incorporando decisões humanas reais.
Os decretos de Deus, no ensino bíblico, não anulam a liberdade humana, não fazem de Deus o autor do pecado e não transformam a história em um roteiro fechado. Antes, revelam um Deus soberano, santo e sábio, que reina sem fatalismo, chama sem coerção e julga com perfeita justiça.
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Acima um artigo bíblico-teológico e apologético, elaborado com base direta nos PDFs indicados — Desconstruindo o Calvinismo (Hutson Smelley), Contra o Calvinismo (Roger Olson), Que Amor é Este? (Dave Hunt), O Outro Lado do Calvinismo (Laurence M. Vance) e Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia (Norman Geisler & Thomas Howe) — abordando de forma equilibrada e bíblica a relação entre os decretos de Deus e o indeterminismo moral humano.
