Palmas dentro da história do evangelicalismo brasileiro

Dentro da história do evangelicalismo brasileiro, essa associação existiu como preocupação pastoral em alguns setores, especialmente entre igrejas protestantes históricas e segmentos conservadores. Mas é importante formular isso com precisão: uma coisa é demonstrar que líderes temeram uma aproximação estética com religiões afro-brasileiras; outra, muito mais difícil, é provar que as palmas entraram no culto evangélico por influência direta do Candomblé ou da Umbanda.

O protestantismo missionário brasileiro do século XIX — presbiterianos, batistas, metodistas etc. — trouxe inicialmente uma liturgia bastante marcada pelos modelos protestantes europeus e norte-americanos: hinos, oração, leitura bíblica, sermão e uma postura corporal relativamente sóbria. Com o crescimento do pentecostalismo a partir do início do século XX, especialmente depois da chegada do movimento que daria origem à Assembleia de Deus em 1911, o culto evangélico brasileiro passou a comportar, em determinados segmentos, maior espontaneidade corporal e emocional. (Ad Palmas Centro)

Nesse processo, palmas, movimentos corporais, exclamações, música mais rítmica e outras manifestações foram gradualmente se tornando comuns em partes do pentecostalismo. Estudos acadêmicos sobre o culto pentecostal brasileiro reconhecem justamente essa dimensão corporal — incluindo as palmas — e procuram compreendê-la também dentro da cultura religiosa brasileira. (Periódicos UFJF)

O Brasil já possuía uma forte tradição religiosa afro-brasileira, na qual percussão, ritmo, dança, canto responsorial e palmas podem desempenhar funções rituais. Assim, para determinados pastores evangélicos, sobretudo das gerações mais antigas, a introdução de forte marcação rítmica com palmas e movimentos corporais no culto podia parecer uma aproximação estética com o terreiro. A preocupação pastoral era aproximadamente: “Mesmo que não estejamos cultuando a mesma coisa, será prudente adotar uma linguagem corporal que, para parte da população brasileira, possui associação religiosa tão forte com outro culto?”

Esse argumento não é necessariamente absurdo. Ele pode ser tratado dentro do princípio paulino da conveniência e do testemunho, e não como uma declaração de que a palma seja intrinsecamente pagã. Uma igreja pode considerar lícito um gesto e, ainda assim, decidir pastoralmente não utilizá-lo por causa das associações culturais que aquele gesto possui em seu contexto.

Há, porém, um segundo fator que talvez seja historicamente ainda mais importante para explicar a resistência às palmas: a própria tradição litúrgica protestante. No presbiterianismo brasileiro, por exemplo, encontramos debates denominacionais explícitos sobre palmas, expressões corporais e aplausos. Uma carta pastoral sobre liturgia da IPB dedica seções específicas a “fortes expressões corporais”, “palmas” e “aplausos”, mostrando que a questão foi efetivamente objeto de preocupação e orientação eclesiástica. (Barrabás Livre) Documentos ligados ao debate presbiteriano também deixam claro que havia discussão sobre se as palmas seriam um elemento indevidamente acrescentado ao culto ou simplesmente uma expressão cultural do louvor. (Executiva IPB)

Historicamente, parecem convergir pelo menos três preocupações: preservação da sobriedade protestante tradicional; receio de transformar culto em espetáculo; e, no contexto especificamente brasileiro, preocupação com possíveis associações com práticas religiosas afro-brasileiras.

E existe uma distinção teológica que considero fundamental. Se um pastor disser:

“Não usamos palmas porque queremos preservar uma liturgia sóbria e evitar uma linguagem ritual que nossa comunidade possa associar a outros cultos.”

essa é uma decisão pastoral defensável.

Mas se disser:

“Bater palmas é prática do Candomblé e, portanto, é demoníaco bater palmas no culto”,

o argumento fica biblicamente insustentável, porque Salmo 47:1 precede em muitos séculos qualquer religião afro-brasileira:

“Batei palmas, todos os povos; celebrai a Deus com vozes de júbilo.”

Existe ainda outro problema lógico: semelhança formal não significa identidade religiosa. Umbandistas podem cantar; cristãos também cantam. Podem utilizar instrumentos; Israel utilizava instrumentos. Podem ajoelhar-se ou levantar as mãos; cristãos também fazem isso. O significado religioso de um gesto não pode ser determinado simplesmente por outra religião também praticá-lo.

Por isso, eu colocaria a posição histórica e pastoral desta maneira:

é legítimo compreender por que setores conservadores do evangelicalismo brasileiro olharam com reservas para as palmas, especialmente num ambiente cultural em que manifestações afro-brasileiras também fazem amplo uso de ritmo, percussão e expressão corporal. Essa preocupação pode justificar cautela litúrgica, sobretudo para evitar sincretismo ou ambiguidade. Entretanto, a semelhança externa não demonstra dependência histórica nem contaminação espiritual. Para demonstrar sincretismo seria necessário mostrar que a igreja incorporou não simplesmente o gesto físico das palmas, mas seu significado, função ou conteúdo religioso provenientes de outro sistema de culto.

Essa distinção, a meu ver, permite manter a preocupação pastoral conservadora sem cometer o erro histórico de afirmar que “palmas na igreja vieram do Candomblé” — algo para o qual não encontrei evidência histórica suficiente.

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