SALMO 51:5, O PECADO ADÂMICO E A INOCÊNCIA DAS CRIANÇAS

Uma defesa bíblica, arminiana e patrística contra a imputação da culpa de Adão aos recém-nascidos

Introdução

Uma das passagens mais utilizadas para defender que toda criança já nasce pessoalmente culpada diante de Deus é Salmo 51:5:

“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.”

A partir desse texto, alguns sistemas teológicos concluem que a criança não apenas nasce numa humanidade afetada pela queda, mas já nasce culpada, espiritualmente morta e debaixo da condenação divina, antes de qualquer ato moral próprio.

Entretanto, essa conclusão vai além daquilo que o texto afirma. A posição que defenderemos neste estudo faz uma distinção fundamental: A humanidade herdou de Adão as consequências de sua queda — sobretudo mortalidade e uma condição humana enfraquecida e inclinada ao pecado —, mas isso não significa que cada descendente de Adão seja pessoalmente culpado pelo pecado que Adão praticou.

Em outras palavras: herdamos a consequência do pecado de Adão; não praticamos o pecado de Adão.

Uma criança pertence à humanidade adâmica e, portanto, é mortal e potencialmente pecadora, no sentido de possuir uma natureza humana vulnerável ao pecado. Contudo, culpa moral pessoal pressupõe pecado pessoal. Essa distinção encontra respaldo importante tanto nas Escrituras quanto em testemunhos anteriores à formulação agostiniana madura do pecado original.


1. O que Salmo 51:5 realmente afirma?

Davi declara:

“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.”
Salmo 51:5

Primeiramente, precisamos respeitar o gênero literário. Estamos diante de poesia penitencial hebraica, e não de um tratado sistemático sobre antropologia ou sobre a situação jurídica dos recém-nascidos.

Davi está confessando seu próprio pecado.

Observe o contexto:

“Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.”
Salmo 51:3

Davi não diz:

“Eu pequei quando fui concebido.”

Também não diz:

“Deus imputou a mim o pecado de Adão quando fui concebido.”

Muito menos:

“Eu já estava condenado por Deus antes de praticar qualquer pecado.”

Seu argumento é que sua existência inteira ocorre dentro de uma humanidade profundamente marcada pelo pecado.

Há uma diferença enorme entre dizer:

“Nasci em uma humanidade pecadora”

e dizer:

“Nasci pessoalmente culpado de um pecado que outra pessoa cometeu.”

Salmo 51:5 sustenta perfeitamente a primeira afirmação, mas não demonstra a segunda.


2. Davi utiliza linguagem poética intensificada

O próprio Salmo demonstra isso.

Davi diz:

“Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste.”
Salmo 51:8

Deus literalmente havia quebrado os ossos de Davi?

Não.

Trata-se de linguagem poética para expressar a profundidade de sua angústia. Da mesma maneira, quando Davi remonta sua condição pecaminosa à própria concepção, está enfatizando quão profundamente o pecado marca a existência humana. Não podemos retirar uma expressão poética de seu contexto e transformá-la, isoladamente, numa doutrina completa de imputação jurídica da culpa de Adão aos bebês.


3. Pecado adâmico: consequência não significa culpa pessoal

A expressão teológica “pecado original” não aparece como expressão técnica nas Escrituras. É uma terminologia desenvolvida posteriormente para explicar as consequências da queda. Por isso, neste estudo é mais preciso falar em pecado adâmico, isto é, o pecado histórico cometido por Adão e as consequências que esse pecado introduziu na humanidade.

Adão pecou.

Nós não estávamos conscientemente no Éden escolhendo comer do fruto. Contudo, como descendentes de Adão, nascemos dentro da humanidade que sofreu as consequências daquele acontecimento.

A distinção pode ser resumida assim: Adão transmite a condição resultante da queda; isso não significa automaticamente que Deus transfira a responsabilidade moral pessoal pelo ato de Adão para cada recém-nascido. O exemplo mais evidente dessa consequência é a morte.


4. Romanos 5:12: o que passou a todos os homens?

Paulo escreve:

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram.”
Romanos 5:12

Observe cuidadosamente a progressão:

um homem pecou → o pecado entrou no mundo → pelo pecado entrou a morte → a morte passou a todos.

O elemento que Paulo explicitamente diz ter alcançado universalmente a humanidade é a morte.

O texto grego termina:

ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον — eph’ hō pantes hēmarton

normalmente entendido como:

“porque todos pecaram”.

A conhecida interpretação ocidental de que Paulo estaria dizendo “em quem [Adão] todos pecaram” tornou-se especialmente importante na teologia de Agostinho, apoiada na tradição textual latina. O grego, porém, não obriga essa leitura. Há importante discussão exegética sobre a construção, e a leitura “porque todos pecaram” é amplamente reconhecida. Portanto, devemos ter cuidado antes de transformar Romanos 5:12 em: “Adão pecou e Deus considerou cada futuro bebê pessoalmente culpado daquele ato.” Essa frase simplesmente não aparece no versículo.


5. João Crisóstomo: de Adão recebemos mortalidade

Aqui encontramos um testemunho patrístico particularmente importante.

Comentando exatamente Romanos 5:12, João Crisóstomo pergunta o que significa a expressão “porque todos pecaram” e explica que, depois da queda de Adão:

aqueles que não comeram da árvore também se tornaram “mortais”.

Fonte: João Crisóstomo, Homilias sobre Romanos, Homilia 10, comentário de Romanos 5:12–14.

Essa observação é extremamente significativa.

Crisóstomo vê a universalização da consequência da queda especialmente em termos de mortalidade. Mais adiante, ele chega a reconhecer a dificuldade moral de alguém ser punido por causa do pecado de outro.

Assim podemos formular: Adão pecou; a humanidade morreu.

Não precisamos transformar isso em: Adão pecou; portanto todos os bebês pessoalmente praticaram aquele pecado e carregam individualmente a culpa moral daquele ato.


6. Romanos 5:14 reforça a distinção

Paulo prossegue:

“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão…”
Romanos 5:14

Aqui está exatamente a distinção.

Pessoas que não cometeram a transgressão de Adão sofreram a consequência da transgressão de Adão:

a morte.

Logo:

consequência compartilhada não é necessariamente culpa compartilhada.

A mortalidade é universal porque pertencemos à humanidade adâmica. A culpa moral, entretanto, relaciona-se à responsabilidade moral do indivíduo diante de Deus.


7. Uma testemunha antiga ainda mais explícita: Ambrosiaster

No comentário antigo atribuído durante séculos a Ambrósio, mas hoje conhecido como Ambrosiaster, encontramos uma distinção interessante entre a morte proveniente de Adão e a condenação decorrente dos próprios pecados.

Ao comentar Romanos 5:12, o autor distingue a morte corporal da “segunda morte”, afirmando que esta última não é sofrida simplesmente pelo pecado de Adão, mas está relacionada aos nossos próprios pecados. Essa tradição interpretativa é particularmente relevante porque demonstra que, na Antiguidade cristã, a relação entre Adão, morte e condenação pessoal não era formulada de maneira uniforme.

Isso fortalece nossa distinção: Mortalidade adâmica ≠ culpa moral pessoal.


8. Romanos 7:9: “Eu, nalgum tempo, vivia sem lei”

Aqui temos um dos textos mais importantes para a discussão.

Paulo declara:

“E eu, nalgum tempo, vivia sem lei; mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.”
Romanos 7:9

Observe a sequência:

1. “Eu vivia.”
2. “Veio o mandamento.”
3. “O pecado reviveu.”
4. “Eu morri.”

Isso é muito significativo para uma interpretação que relaciona a passagem ao desenvolvimento da consciência moral.

Paulo não diz:

“Eu já nasci morto e condenado.”

Sua linguagem é:

“Eu vivia… depois… eu morri.”

Não devemos apresentar como fato incontroverso que Romanos 7:9 se refere à infância, porque existem outras interpretações da passagem. Entretanto, a leitura referente à infância é antiga e possui apoio patrístico e exegético.

Orígenes interpretava o texto exatamente nessa direção. A explicação atribuída a ele é:

“Todo homem viveu alguma vez sem lei, quando era criança.”

Essa leitura de Romanos 7:9 é registrada na tradição exegética como interpretação de Orígenes.

Isso é extraordinariamente importante para nossa discussão. A criança encontra-se numa fase em que ainda não chegou ao conhecimento moral consciente do mandamento. Quando chega o mandamento à consciência e ocorre a transgressão responsável, o pecado passa a produzir culpa pessoal e morte espiritual. Portanto, podemos falar de uma idade ou condição de não imputabilidade moral, não necessariamente de uma idade cronológica idêntica para todas as pessoas.


9. Metódio: “vivo e irrepreensível antes da lei”

Outro testemunho patrístico é ainda mais expressivo.

Metódio de Olimpo, comentando Romanos 7:8–10, apresenta a condição anterior ao mandamento como aquela na qual alguém estava:

“vivo e irrepreensível antes da lei”.

E relaciona a possibilidade da transgressão ao surgimento do mandamento: sem o mandamento, aquela transgressão ainda não podia ser cometida naquela forma.

Isso se harmoniza fortemente com a distinção que estamos estabelecendo: potencialidade para pecar não é a mesma coisa que culpa por pecado efetivamente cometido.


10. Deuteronômio 1:39: crianças “que não sabem o bem nem o mal”

A própria Escritura estabelece uma categoria moral muito importante:

“E vossos meninos… e vossos filhos, que hoje nem sabem o bem nem o mal, eles ali entrarão…”
Deuteronômio 1:39

Deus distingue os adultos rebeldes de seus filhos.

Por quê?

Porque as crianças:

“não sabem o bem nem o mal.”

Isso significa ausência de discernimento moral desenvolvido. A criança pertence à humanidade caída, mas ainda não possui a responsabilidade moral consciente daquele que conhece o bem e escolhe o mal.


11. Isaías 7:16 confirma o princípio

Isaías declara:

“Porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem…”
Isaías 7:16

Existe, portanto, um “antes”.

Antes de quê?

Antes de a criança possuir discernimento suficiente para:

rejeitar o mal
e
escolher o bem.

Logo, a Bíblia reconhece uma fase anterior ao desenvolvimento da responsabilidade moral.


12. Gregório Nazianzeno: crianças não são tratadas como pessoas perversas

No século IV, Gregório Nazianzeno discutiu diretamente a situação de pessoas que morriam sem receber o batismo por circunstâncias involuntárias, mencionando especificamente a infância.

Ele afirma que essas pessoas não deveriam ser punidas pelo justo Juiz como os perversos, pois são:

“não perversas”

e sofreram a situação em vez de terem praticado o mal deliberadamente.

Fonte: Gregório Nazianzeno, Oração 40 — Sobre o Santo Batismo, §23.

Mais adiante, tratando especificamente das crianças, Gregório afirma que elas começam a tornar-se responsáveis por suas vidas quando a razão amadurece e acrescenta que, quanto às faltas decorrentes da ignorância própria da tenra idade, não lhes é exigida prestação de contas.

Essa declaração é fortíssima.

Temos aqui, no século IV, uma distinção explícita entre:

condição infantil sem responsabilidade moral desenvolvida

e

responsabilidade pelos próprios pecados.


13. Tertuliano fala do “período inocente da vida”

Tertuliano, escrevendo sobre o batismo e defendendo que, em circunstâncias normais, fosse adiado para crianças pequenas, pergunta:

“Por que o período inocente da vida se apressa para a remissão dos pecados?”

Fonte: Tertuliano, De Baptismo [Sobre o Batismo], cap. 18.

Independentemente de concordarmos ou não com a posição sacramental de Tertuliano, sua terminologia é historicamente importante.

Ele chama a infância de um:

“período inocente da vida”.

Isso demonstra que não devemos projetar automaticamente sobre todos os escritores cristãos primitivos a formulação agostiniana posterior de culpa herdada em sua forma desenvolvida.


14. Irineu e a santificação das diferentes idades

Irineu de Lião, escrevendo no século II, apresenta Cristo passando pelas diferentes etapas da existência humana e afirma que Cristo se tornou:

“infante para os infantes”

e assim santificou os infantes.

Irineu menciona expressamente “infantes, crianças, jovens e idosos” no alcance da obra salvadora de Cristo.

Fonte: Irineu, Contra as Heresias, II.22.4.

Não devemos fazer Irineu dizer mais do que efetivamente disse. Esse texto não é uma exposição sistemática sobre imputação da culpa de Adão. Entretanto, demonstra a maneira positiva pela qual ele contempla os pequenos dentro da obra redentora e santificadora de Cristo.


15. Jesus e as crianças: “dos tais é o Reino de Deus”

Essa doutrina encontra uma de suas bases mais belas nas palavras do próprio Jesus.

Mateus registra:

“Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus.”
Mateus 19:14

Marcos registra:

“Deixai vir os pequeninos a mim e não os impeçais, porque dos tais é o reino de Deus.”
Marcos 10:14

Lucas igualmente registra:

“Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais, porque dos tais é o reino de Deus.”
Lucas 18:16

É importante formular corretamente: temos aqui três registros sinóticos do ensino de Jesus, e não necessariamente três ocasiões históricas distintas.

Mas o testemunho é impressionante:

Mateus: dos tais é o Reino.
Marcos: dos tais é o Reino.
Lucas: dos tais é o Reino.

Jesus não apresenta essas crianças aos discípulos como paradigma de seres pessoalmente condenados pela culpa de outra pessoa.

Ao contrário, declara:

“dos tais é o Reino de Deus.”


16. Mais ainda: para entrar no Reino devemos nos tornar como crianças

Jesus vai além:

“Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.”
Mateus 18:3

A força apologética desse texto merece atenção.

Se a criança fosse apresentada essencialmente como paradigma de alguém já pessoalmente culpado e condenado desde a concepção, seria estranho que Cristo a colocasse diante dos discípulos como modelo para explicar como alguém entra no Reino.

Cristo não diz:

“A criança precisa tornar-se como vocês.”

Ele inverte:

“Vocês precisam tornar-se como as crianças.”

Não significa que crianças sejam impecáveis ou incapazes de futuramente pecar. Significa que o próprio Jesus utiliza a condição infantil positivamente na explicação do Reino.


17. Ezequiel 18:20 e o princípio da responsabilidade pessoal

Deus declara:

“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho.”
Ezequiel 18:20

O contexto imediato trata da responsabilidade individual em Israel e não deve ser transformado sozinho numa teoria completa sobre Adão. Contudo, estabelece um princípio importantíssimo sobre a justiça divina:

Deus não considera o filho moralmente responsável simplesmente pelo pecado pessoal praticado pelo pai.

Aplicado cuidadosamente à discussão:

Adão responde pelo pecado de Adão.

Eu respondo pelos meus pecados.

Eu posso sofrer consequências históricas e naturais decorrentes da ação de outro sem me tornar moralmente culpado pela ação dele.


18. A diferença entre consequência e culpa

Imagine uma criança cujo pai desperdice todo o patrimônio familiar. Ela poderá nascer pobre por causa da decisão do pai. A pobreza é uma consequência herdada.

Mas ninguém poderia afirmar justamente: “A criança é culpada por ter desperdiçado o patrimônio.”

Ela sofre a consequência de um ato que não praticou.

Guardadas as enormes diferenças, isso ajuda a compreender nossa relação com Adão.

Por causa da queda recebemos uma humanidade sujeita:

  • à mortalidade;
  • à corrupção;
  • ao sofrimento;
  • às fraquezas;
  • às tentações;
  • e à inclinação ao pecado.

Mas disso não decorre automaticamente que o bebê tenha pessoalmente cometido o pecado de Adão.

Consequência não é culpa.


19. A criança é potencialmente pecadora, não pessoalmente culpada

É aqui que podemos formular a posição de maneira mais precisa.

Não afirmamos que a criança seja uma criatura pertencente a uma humanidade diferente da nossa.

Ela é descendente de Adão.

Ela possui natureza humana mortal e vulnerável.

Ela crescerá num mundo caído e possui potencial real para o pecado.

Entretanto:

capacidade para pecar não é pecado.

inclinação não é transgressão.

mortalidade não é culpa.

consequência adâmica não é responsabilidade moral pelo ato de Adão.

Quando o indivíduo alcança discernimento moral e conscientemente transgride a vontade de Deus, torna-se pecador também por seus próprios atos.

Como Paulo afirma:

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.”
Romanos 3:23

Nós não precisamos inventar pecado pessoal no berço para explicar a universalidade do pecado na humanidade adulta.


20. Isso significa negar os efeitos profundos da queda?

Não.

E aqui é necessário cuidado até mesmo com a palavra “depravação total”. O arminianismo clássico não ensina que o homem caído possa salvar-se sozinho nem que permaneça espiritualmente intacto depois da queda. A tradição arminiana sustenta a necessidade absoluta da graça de Deus.

Portanto, nosso argumento não deve ser:

“Salmo 51:5 prova que o homem não foi profundamente afetado pela queda.”

Esse argumento seria desnecessário.

O argumento correto é:

“Salmo 51:5 não prova a imputação da culpa pessoal de Adão ao recém-nascido.”

Uma coisa é afirmar a extensão radical dos efeitos da queda.

Outra coisa é afirmar:

“Deus considera um bebê pessoalmente culpado pelo ato que Adão praticou.”

Essa segunda afirmação precisa ser demonstrada biblicamente; não pode simplesmente ser presumida a partir de Salmo 51:5.


21. A teologia patrística não era monolítica

Historicamente, também precisamos evitar o erro inverso.

Não podemos dizer:

“Todos os Pais da Igreja ensinaram exatamente nossa posição.”

Isso seria exagerado.

Houve desenvolvimento doutrinário, diferentes maneiras de explicar batismo infantil, mortalidade, corrupção e pecado adâmico. Entretanto, é igualmente incorreto projetar retrospectivamente toda a formulação agostiniana posterior sobre os primeiros séculos.

Antes das controvérsias de Agostinho com Pelágio, encontramos linguagem patrística bastante significativa:

Tertuliano: infância como “período inocente da vida”.

Gregório Nazianzeno: crianças incapazes de receber o batismo não são classificadas simplesmente como perversas e, em sua tenra idade, não prestam contas por pecados decorrentes dessa falta de discernimento.

João Crisóstomo: a consequência que alcançou os descendentes de Adão é explicitamente descrita em Romanos 5 como mortalidade, inclusive para aqueles que não comeram da árvore.

Metódio: interpreta Romanos 7:9 falando de uma condição “viva e irrepreensível” antes da entrada do mandamento.

Orígenes: relaciona o “eu vivia sem lei” de Romanos 7:9 à infância.

Isso demonstra que a questão é historicamente muito mais rica do que simplesmente afirmar que a concepção agostiniana posterior sempre foi unanimemente ensinada desde os apóstolos.


22. A sequência bíblica

Quando colocamos os textos lado a lado, temos uma linha argumentativa coerente:

Adão peca — Gênesis 3.

↓

Pelo pecado de Adão entra a morte — Romanos 5:12.

↓

A morte alcança inclusive aqueles que não cometeram a mesma transgressão de Adão — Romanos 5:14.

↓

A Escritura reconhece crianças que ainda “não sabem o bem nem o mal” — Deuteronômio 1:39.

↓

Existe um período anterior a saber “rejeitar o mal e escolher o bem” — Isaías 7:16.

↓

Paulo pode dizer: “eu vivia sem lei”; depois veio o mandamento, o pecado reviveu e “eu morri” — Romanos 7:9.

↓

Jesus declara acerca dos pequeninos: “dos tais é o Reino de Deus” — Mateus 19:14; Marcos 10:14; Lucas 18:16.

↓

E Jesus exige que o adulto se torne como uma criança para entrar no Reino — Mateus 18:3.

Essa sequência fornece uma base significativa para distinguir mortalidade adâmica de culpa moral pessoal.


CONCLUSÃO

Salmo 51:5 não ensina que uma criança seja pessoalmente culpada desde a concepção. Davi não afirma ter praticado pecado no ventre, nem diz que Deus lhe imputou pessoalmente a transgressão de Adão. Ele confessa que toda a sua existência ocorre dentro de uma humanidade profundamente marcada pelo pecado.

Romanos 5 explica como essa situação começou: “por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte”. A consequência universal e explicitamente destacada é a morte. João Crisóstomo, comentando exatamente essa passagem, reconheceu que até aqueles que não comeram da árvore tornaram-se mortais por causa da queda de Adão.

Por isso precisamos distinguir cuidadosamente:

Herdamos de Adão a mortalidade; não praticamos o pecado de Adão.

Herdamos as consequências da queda; isso não significa automaticamente herdar culpa moral pessoal pelo ato de Adão.

Nascemos numa humanidade caída e potencialmente pecadora; tornamo-nos pessoalmente culpados quando pecamos sob responsabilidade moral.

Romanos 7:9 torna-se, nessa leitura, particularmente significativo:

“Eu vivia sem lei; mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.”

Primeiro, vivia.

Depois, veio o mandamento.

Então o pecado tornou-se uma realidade de transgressão consciente.

Então, morreu.

Essa interpretação possui antecedentes antigos, inclusive em Orígenes, e encontra paralelo na interpretação de Metódio.

E tudo isso se harmoniza com as palavras de Cristo acerca dos pequeninos:

“Dos tais é o Reino dos céus.”

O mesmo ensino é preservado por Mateus, Marcos e Lucas.

Portanto, a posição bíblica aqui defendida não precisa negar a queda, a universalidade posterior do pecado nem a absoluta necessidade da graça de Deus. Ela apenas rejeita a conclusão de que Deus considere pessoalmente culpada uma criança que ainda não possui discernimento moral e que jamais praticou conscientemente uma transgressão. A criança nasce dentro da humanidade de Adão e, por isso, nasce mortal. Mas mortalidade não é culpa; natureza vulnerável ao pecado não é pecado praticado; potencialidade para pecar não é condenação pessoal.

A culpa pressupõe responsabilidade moral. E a responsabilidade moral pressupõe uma criatura capaz de responder moralmente diante de Deus.

É por isso que as palavras de Jesus possuem tamanho peso:

“Deixai os pequeninos… porque dos tais é o Reino dos céus.”

Sair da versão mobile