Segue uma análise bíblico-teológica de 2 Coríntios 6.1, elaborada com base direta nos PDFs utilizados ao longo da conversa — Desconstruindo o Calvinismo (Hutson Smelley), Contra o Calvinismo (Roger Olson), Que Amor é Este? (Dave Hunt), O Outro Lado do Calvinismo (Laurence M. Vance) e Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia (Norman Geisler & Thomas Howe) — respondendo de forma clara à pergunta:
“E nós, cooperando com ele, também vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão.”
(2Co 6.1)
1. A quem Paulo dirige a exortação?
O texto começa com um dado decisivo: “vos exortamos”.
Paulo não se dirige a incrédulos, mas à igreja de Corinto, composta por pessoas que já haviam:
- ouvido o evangelho,
- crido em Cristo,
- recebido a graça salvadora.
Roger Olson enfatiza que as advertências paulinas são pastorais e internas à comunidade cristã, não meramente evangelísticas .
Portanto, a possibilidade mencionada no texto não é teórica nem dirigida a “quase convertidos”, mas a crentes reais.
2. O significado de “receber a graça de Deus”
O verbo grego dechomai (“receber”) indica:
- acolher,
- aceitar,
- apropriar-se.
Norman Geisler observa que esse verbo pressupõe participação real, não mera exposição externa .
Paulo não diz “ouvir sobre a graça”, mas “receber a graça”. Logo, trata-se de graça realmente concedida, não apenas oferecida.
3. O peso da expressão “em vão”
A expressão grega eis kenon significa:
- inutilmente,
- sem efeito,
- sem produzir o resultado esperado.
Hutson Smelley destaca que Paulo usa essa mesma linguagem em outros textos para falar de algo real que pode ser frustrado, não de algo ilusório ou impossível .
Se fosse impossível receber a graça em vão:
- a advertência seria desnecessária,
- o imperativo perderia sentido,
- a cooperação mencionada por Paulo seria ilusória.
4. “Cooperando com ele”: graça e responsabilidade
Um ponto central do texto é a expressão:
“cooperando com ele” (synergountes).
Laurence Vance observa que Paulo descreve a vida cristã como cooperação real com a graça, não como execução automática de um decreto .
Isso não implica:
- mérito humano,
- salvação pelas obras,
mas implica responsabilidade real diante da graça recebida.
Dave Hunt afirma que graça irresistível e incondicional não pode ser recebida “em vão”, pois ela sempre produziria infalivelmente seu efeito — o que contradiz diretamente 2Co 6.1 .
5. A incoerência da leitura determinista
No determinismo calvinista clássico:
- a graça salvadora é irresistível;
- todo eleito necessariamente persevera;
- nenhum verdadeiro convertido pode frustrar a obra da graça.
Roger Olson observa que, sob esse sistema, 2 Coríntios 6.1 precisa ser reinterpretado como:
- mera advertência hipotética,
- linguagem retórica sem risco real .
Contudo, nada no texto indica isso.
A advertência é direta, urgente e prática.
6. Paralelos bíblicos que confirmam a possibilidade
A Bíblia inteira confirma o mesmo princípio ensinado em 2Co 6.1:
- Gálatas 2.21 – “não anulo a graça de Deus”
- Hebreus 12.15 – “falte alguém à graça de Deus”
- Tito 2.11–12 – a graça ensina, mas pode ser resistida
Smelley demonstra que esses textos formam um padrão coerente, no qual a graça pode ser:
- acolhida,
- negligenciada,
- ou rejeitada posteriormente .
7. Implicações teológicas e pastorais
Teológicas
- A graça é suficiente, mas não irresistível.
- A salvação é dom, mas não automática.
- A perseverança é necessária, não garantida por decreto.
Norman Geisler resume bem: a Bíblia ensina segurança relacional, não imunidade incondicional .
Pastorais
Laurence Vance alerta que negar a possibilidade de receber a graça em vão:
- enfraquece as advertências bíblicas,
- produz falsa segurança,
- reduz a vigilância espiritual .
Paulo, ao contrário, exorta a uma resposta contínua, viva e responsável à graça.
Conclusão
Sim, segundo 2 Coríntios 6.1, é possível receber a graça de Deus em vão.
O texto ensina que:
- a graça pode ser realmente recebida;
- essa graça pode ser negligenciada;
- e sua eficácia pode ser frustrada pela falta de cooperação e perseverança.
Isso:
- não diminui a graça,
- não enfraquece o poder de Deus,
- mas preserva a seriedade do chamado cristão.
A graça salva,
a graça sustenta,
mas a graça não coage.
Por isso, a exortação apostólica permanece válida para todos os tempos:
“Não recebais a graça de Deus em vão.”
