Uma refutação bíblica e apologética
I – INTRODUÇÃO
A questão envolvendo Ellen G. White não pode ser reduzida à afirmação simplista de que ela foi apenas uma “escritora cristã” importante para o adventismo. A própria literatura adventista atribui ao seu ministério caráter profético, inspiração divina e autoridade especial para orientação da Igreja.
O livro Nisto Cremos, ao apresentar a Doutrina Fundamental nº 18 — “O Dom de Profecia” — declara:
“Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é uma característica da Igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White. Como mensageira do Senhor, seus escritos são uma contínua e autorizada fonte de verdade e proporcionam conforto, orientação, instrução e correção à Igreja.”
(Nisto Cremos, CPB, p. 272 — conforme edição citada.)
Também encontramos a seguinte declaração:
CREMOS QUE: Ellen G. White foi inspirada pelo Espírito Santo, e seus escritos, produto dessa inspiração, possuem “aplicação e autoridade especial para os Adventistas do Sétimo Dia”.
E ainda:
NEGAMOS QUE: “A qualidade ou grau de inspiração dos escritos de Ellen White sejam diferentes dos encontrados nas Escrituras Sagradas.”
(Revista Adventista, fev. 1984, p. 37.)
Portanto, a discussão apologética precisa ser colocada em seus verdadeiros termos.
Se Ellen White foi inspirada pelo mesmo Espírito Santo que inspirou os profetas bíblicos, e se seus escritos possuem autoridade profética para instruir, corrigir e orientar a Igreja, então estamos diante da reivindicação de uma fonte profética pós-apostólica de extraordinária autoridade religiosa.
Não basta responder que “Ellen White não faz parte do cânon”.
Isso não resolve o problema.
A verdadeira pergunta é:
Como escritos não canônicos podem ser considerados produto de inspiração profética divina, possuir autoridade especial sobre uma igreja e, ainda assim, não constituírem uma autoridade paralela às Escrituras?
II – O PROBLEMA HERMENÊUTICO
1. Ellen White não é tratada simplesmente como comentarista
A Igreja Adventista não apresenta Ellen White simplesmente como teóloga, escritora devocional ou comentarista bíblica.
Seu ministério é identificado com o dom de profecia.
Seus escritos são apresentados como instrumento de:
orientação, instrução, correção e edificação da Igreja.
Isso cria um problema incontornável para qualquer tentativa de aproximar essa posição da Sola Scriptura protestante.
A Sola Scriptura não significa simplesmente que a Bíblia ocupa o primeiro lugar numa lista de autoridades.
Significa que somente a Escritura constitui a regra infalível e normativa dada por Deus à Igreja para estabelecer doutrina.
Uma fonte profética pós-apostólica permanente, inspirada e autorizada para corrigir e instruir a Igreja cria, inevitavelmente, uma segunda autoridade religiosa que precisa ser explicada.
2. A “luz menor” passa a interpretar a “luz maior”
O adventismo procura resolver o problema chamando Ellen White de “luz menor” que conduz à “luz maior”, isto é, a Bíblia.
Porém, o problema não é resolvido por uma metáfora.
A pergunta permanece:
Na prática, quem interpreta quem?
Quando determinadas doutrinas adventistas são explicadas mediante conceitos desenvolvidos nos escritos de Ellen White, a chamada “luz menor” passa a funcionar como lente hermenêutica através da qual a “luz maior” é interpretada.
O exemplo clássico é o Juízo Investigativo.
Daniel 8:14 declara:
“Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado.”
O texto não diz:
- que em 1844 Cristo entrou numa segunda fase de seu ministério celestial;
- que começou naquele ano um Juízo Investigativo;
- que os registros dos professos crentes começaram a ser examinados no céu;
- nem apresenta toda a estrutura doutrinária posteriormente construída pelo adventismo.
Esses elementos dependem de uma construção interpretativa adventista muito mais ampla.
Portanto, a questão é inevitável:
Se precisamos de Ellen White e da tradição interpretativa adventista para descobrir no texto aquilo que o próprio texto não declara, quem está realmente funcionando como intérprete normativo?
III – THE CLEAR WORD: QUANDO A INTERPRETAÇÃO ENTRA NO TEXTO BÍBLICO
Aqui encontramos um exemplo particularmente importante.
The Clear Word, produzido pelo adventista Jack J. Blanco, não deve ser apresentado incorretamente como uma tradução oficial da Igreja Adventista. Trata-se de uma paráfrase interpretativa/devocional produzida em ambiente adventista.
Mas justamente por ser uma paráfrase interpretativa, ela oferece um exemplo muito revelador do problema hermenêutico. Em diversos lugares, o texto não apenas procura tornar a Bíblia mais compreensível: introduz explicações e conceitos teológicos que não estão explicitamente presentes no texto original.
E é exatamente aqui que a apologética precisa ser contundente:
PARÁFRASE NÃO PODE SER CONFUNDIDA COM REVELAÇÃO.
Quando uma interpretação denominacional é introduzida dentro da redação de um texto apresentado em formato bíblico, o leitor comum pode deixar de perceber onde termina aquilo que o autor bíblico realmente escreveu e onde começa a interpretação teológica do parafraseador.
Esse procedimento é particularmente grave quando a interpretação acrescentada coincide com doutrinas características do adventismo e com conceitos difundidos pela literatura de Ellen G. White.
Nesse caso, a questão deixa de ser simplesmente:
“Ellen White está abaixo da Bíblia?”
A questão passa a ser:
Ideias provenientes da tradição interpretativa adventista estão sendo colocadas dentro da própria redação de uma paráfrase bíblica?
Se estiverem, então temos uma inversão hermenêutica extremamente séria:
não é mais a doutrina sendo julgada pelo texto bíblico; o texto bíblico é expandido para expressar a doutrina.
Isso precisa ser rejeitado.
IV – NÃO SE PODE ACRESCENTAR À PALAVRA DE DEUS
O princípio bíblico é antigo e inequívoco.
Deuteronômio 4:2 declara:
“Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela.”
Provérbios 30:5-6 afirma:
“Toda palavra de Deus é pura […] Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso.”
E Apocalipse 22:18 adverte:
“Se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro.”
Exegeticamente, Apocalipse 22 refere-se diretamente ao próprio Apocalipse. Entretanto, juntamente com Deuteronômio e Provérbios, estabelece-se um princípio bíblico inequívoco:
O homem não possui autoridade para transformar sua interpretação em Palavra de Deus.
Uma coisa é escrever:
“Entendo que este versículo significa…”
Outra completamente diferente é produzir uma paráfrase na qual a interpretação teológica é incorporada à própria redação do texto.
O leitor precisa saber claramente:
O QUE DEUS DISSE e O QUE O INTÉRPRETE ACHA QUE DEUS QUIS DIZER.
Misturar essas duas categorias é hermeneuticamente perigoso.
V – A SUFICIÊNCIA DAS ESCRITURAS
Hebreus 1:1-2 declara:
“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes e de muitas maneiras aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho.”
Cristo é a culminação da revelação divina.
Judas 3 afirma que devemos batalhar:
“pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.”
Paulo ainda estabelece em Gálatas 1:8:
“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.”
Observe a força do princípio paulino.
Nem mesmo um anjo possui autoridade para alterar o Evangelho apostólico.
Portanto, muito menos uma suposta revelação profética do século XIX pode estabelecer doutrinas que não possam ser demonstradas pela exegese das Escrituras.
O cristão não precisa perguntar:
“O que Ellen White revelou sobre esse texto?”
Sua pergunta deve ser:
“O que o Espírito Santo revelou nesse texto através do autor bíblico?”
Essa diferença é fundamental.
VI – APOCALIPSE 12:17 E 19:10 NÃO PROVAM ELLEN WHITE
Um dos argumentos adventistas utilizados para defender o ministério profético de Ellen White envolve Apocalipse 12:17 e 19:10.
Apocalipse 19:10 declara:
“O testemunho de Jesus é o espírito de profecia.”
Mas observe cuidadosamente o que o texto não diz.
Ele não diz:
“O espírito de profecia será Ellen G. White.”
Não diz:
“No século XIX surgirá uma profetisa nos Estados Unidos.”
Não diz:
“Essa profetisa pertencerá à Igreja Adventista do Sétimo Dia.”
Não diz:
“Seus escritos terão autoridade especial para interpretar a Bíblia.”
E muito menos diz:
“Seus escritos possuirão o mesmo grau de inspiração das Escrituras.”
Nenhuma dessas afirmações aparece no texto.
Elas precisam ser acrescentadas através de uma construção teológica posterior.
Portanto, utilizar Apocalipse 19:10 para provar Ellen White e depois utilizar Ellen White para confirmar a interpretação adventista de Apocalipse é raciocínio circular.
A conclusão já está embutida na premissa.
VII – O PROBLEMA DO “MESMO GRAU DE INSPIRAÇÃO”
Aqui encontramos talvez a maior dificuldade apologética.
Se é afirmado que:
“A qualidade ou grau de inspiração dos escritos de Ellen White” não difere daquele encontrado nas Escrituras, então surge uma pergunta inevitável:
O QUE SIGNIFICA, ENTÃO, SER INSPIRADO?
Se Isaías foi inspirado pelo Espírito Santo;
se Paulo foi inspirado pelo Espírito Santo;
se João foi inspirado pelo Espírito Santo;
e Ellen White também foi inspirada pelo Espírito Santo, sem diferença de “qualidade ou grau” de inspiração,
qual é a diferença objetiva entre a inspiração profética de Ellen White e a inspiração dos profetas bíblicos?
Dizer apenas:
“Ela não é canônica”
não responde à questão.
É necessário explicar por que uma revelação produzida pelo mesmo Espírito, mediante inspiração profética de mesma qualidade, seria permanentemente autorizada para instruir e corrigir a Igreja, mas não teria a mesma normatividade das Escrituras.
A tensão permanece.
E quanto maior for a reivindicação de inspiração feita em favor de Ellen White, maior será o ônus da prova.
VIII – O TESTE BÍBLICO DE QUALQUER PROFETA
A Bíblia nunca ordena que uma alegação profética seja aceita simplesmente porque alguém afirma ter recebido visões.
Pelo contrário:
“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.”
Isaías 8:20
E Paulo ordena:
“Examinai tudo. Retende o bem.”
1 Tessalonicenses 5:21
Portanto, Ellen White deve ser examinada.
Suas visões devem ser examinadas.
Suas profecias devem ser examinadas.
Suas interpretações devem ser examinadas.
Suas doutrinas devem ser examinadas.
E o padrão desse julgamento não pode ser Ellen White.
O padrão deve ser a Escritura.
Se uma doutrina depende de uma revelação posterior para ser encontrada na Bíblia, isso já constitui motivo suficiente para submetê-la a severo escrutínio.
IX – A QUESTÃO APOLOGÉTICA DEFINITIVA
A questão não é simplesmente:
“Os adventistas consideram Ellen White parte da Bíblia?”
Essa pergunta é insuficiente.
A questão muito mais profunda é:
Se Ellen White não pertence ao cânon, por que seus escritos são considerados produto da inspiração divina, manifestação do dom de profecia e autoridade especial para orientar, instruir e corrigir uma igreja?
E mais:
Se suas revelações são necessárias para estabelecer, esclarecer ou confirmar doutrinas que não emergem naturalmente do texto bíblico, então qual é, na prática, a verdadeira autoridade hermenêutica final?
A Bíblia?
Ou a Bíblia interpretada através de Ellen White?
Esse é o ponto que não pode ser evitado.
X – CONCLUSÃO: VOLTEMOS ÀS ESCRITURAS
O problema torna-se ainda mais evidente quando interpretações distintivamente adventistas aparecem incorporadas à redação de uma paráfrase bíblica como The Clear Word.
Mesmo reconhecendo corretamente que The Clear Word não é a tradução oficial da Igreja Adventista, o fenômeno permanece apologeticamente significativo:
uma coisa é comentar a Bíblia; outra é inserir a interpretação dentro da redação da própria paráfrase bíblica.
O comentário deve permanecer comentário.
A interpretação deve permanecer interpretação.
A tradição deve permanecer tradição.
E A BÍBLIA DEVE PERMANECER BÍBLIA.
Não podemos colocar palavras na boca dos profetas.
Não podemos colocar doutrinas dentro de versículos que não as ensinam.
Não podemos transformar uma interpretação denominacional em revelação divina.
E não podemos permitir que uma profetisa do século XIX se transforme na lente necessária para compreendermos aquilo que os apóstolos escreveram no primeiro século.
O princípio da Reforma continua indispensável:
SOLA SCRIPTURA.
Não significa desprezar mestres, comentaristas ou a história da Igreja.
Significa que todos eles permanecem debaixo da Palavra.
Paulo está debaixo da Palavra inspirada que Deus lhe concedeu escrever.
Os teólogos estão debaixo da Palavra.
Os concílios estão debaixo da Palavra.
As denominações estão debaixo da Palavra.
Os pastores estão debaixo da Palavra.
E Ellen G. White também precisa estar debaixo da Palavra.
Nenhuma visão posterior pode completar o Evangelho.
Nenhuma profetisa posterior pode acrescentar doutrina ao depósito apostólico.
Nenhuma paráfrase pode transformar interpretação denominacional em texto inspirado.
Nenhuma tradição possui autoridade para inserir no texto aquilo que Deus não colocou nele.
Por isso, permanece atual o exemplo dos bereanos:
“Estes foram mais nobres do que os de Tessalônica, pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando diariamente as Escrituras para ver se estas coisas eram assim.”
Atos 17:11
Eles não perguntavam:
“O que nossa profetisa disse?”
Perguntavam:
“O QUE DIZEM AS ESCRITURAS?”
Esse deve continuar sendo o princípio da Igreja de Cristo.
XI – REFLEXÃO FINAL
“Viver sem ler é perigoso: você acaba acreditando em tudo aquilo que lhe dizem.”
Quem não examina torna-se prisioneiro das palavras dos outros.
Aprende a repetir pensamentos alheios como se fossem seus; aceita interpretações que nunca investigou; recebe doutrinas que jamais confrontou com a Palavra de Deus e, pouco a pouco, pode confundir aquilo que homens disseram sobre Deus com aquilo que Deus efetivamente revelou em sua Palavra.
Não devemos temer o exame.
A verdade não precisa fugir das perguntas.
Doutrinas verdadeiras suportam investigação.
Profetas verdadeiros suportam o teste bíblico.
E aquilo que realmente procede de Deus jamais precisará modificar as Escrituras para conseguir apoio.
“Examinai tudo. Retende o bem.”
1 Tessalonicenses 5:21
Que o Senhor nos conceda entendimento, discernimento e coragem para permanecermos fiéis à sua Palavra, rejeitando qualquer acréscimo humano que pretenda ocupar o lugar da revelação divina.
Amém. 🙏
