Motivos para que o Calvinismo seja rechaçado

Embora o calvinismo não seja formalmente uma religião gnóstica ou maniqueísta, sua doutrina do decreto absoluto, da dupla predestinação, da incapacidade salvífica, da graça irresistível e da reprovação incondicional reproduz a mesma nocividade moral presente nos antigos sistemas deterministas combatidos pela Igreja: divide a humanidade em grupos de destinos previamente fixados, elimina a possibilidade real de resposta à graça e compromete a bondade de Deus ao fazer com que todo acontecimento — inclusive o pecado e a incredulidade — esteja infalivelmente abrangido por sua vontade decretiva. Por isso, assim como a Igreja primitiva rejeitou a gnose determinista para preservar a justiça de Deus e a responsabilidade humana, o determinismo calvinista também deve ser rejeitado.

1. A nocividade comum: destinos fixados antes da resposta humana

Em diferentes sistemas gnósticos, a humanidade era classificada segundo constituições ou naturezas distintas. Entre os valentinianos, por exemplo, apareciam categorias como:

O destino dessas pessoas estava relacionado à natureza à qual pertenciam. Irineu combateu essa concepção porque ela tornava a conduta moral secundária: alguns seriam destinados à salvação por sua constituição espiritual; outros, à perdição por sua natureza material.

O calvinismo não ensina essas três naturezas, mas reproduz uma estrutura semelhante:

A equivalência não é de conteúdo metafísico, mas de estrutura soteriológica:

Gnose determinista Calvinismo determinista
Destino relacionado à natureza espiritual Destino relacionado ao decreto eterno
Alguns pertencem à classe salvável Alguns pertencem ao número dos eleitos
Outros não possuem a condição necessária Outros não recebem a graça necessária
A resposta individual não altera o destino final A resposta está infalivelmente determinada pelo decreto
A salvação revela quem já pertencia ao grupo superior A fé revela quem já havia sido incondicionalmente eleito

Em ambos os sistemas, o destino precede e determina a resposta. A fé deixa de ser uma condição genuína que pode ser acolhida ou recusada e passa a ser consequência inevitável de uma condição anterior.

2. O livre-arbítrio era essencial para a Igreja primitiva

Os pais da Igreja não defendiam autonomia absoluta nem salvação por mérito humano. Eles afirmavam:

O livre-arbítrio era indispensável porque permitia afirmar simultaneamente que:

  1. Deus é bom e não produz o pecado;
  2. o ser humano é verdadeiramente responsável por suas escolhas;
  3. os mandamentos divinos são sinceros;
  4. a condenação resulta da recusa da graça;
  5. o juízo de Deus é justo.

Irineu argumentava que Deus criou o homem livre e dotado de vontade própria. Se o homem não tivesse capacidade de obedecer ou desobedecer, tanto os mandamentos quanto as advertências perderiam seu sentido. Louvor e condenação somente são justos quando existe uma resposta voluntária.

A lógica patrística pode ser resumida assim:

Se o bem e o mal praticados pelo homem forem inevitáveis, ninguém poderá ser justamente elogiado pela virtude ou condenado pelo pecado.

3. Sem liberdade genuína, o decreto aproxima Deus da autoria do pecado

O calvinista costuma afirmar que Deus decreta tudo o que acontece, mas não é autor do pecado. Todavia, a simples negação verbal não resolve a dificuldade.

Se Deus:

então é difícil sustentar que sua relação com o pecado seja apenas de permissão.

Uma permissão genuína pressupõe que a criatura possa agir de maneira contrária ao desejo moral de Deus. Mas, se o decreto torna uma ação inevitável, não estamos diante de simples permissão: estamos diante de determinação.

A dificuldade pode ser apresentada desta maneira:

Se Deus decretou infalivelmente que Adão pecaria, Adão poderia não pecar?

Se a resposta for “não”, sua queda era necessária.

Se Adão não poderia deixar de pecar, em que sentido sua escolha era genuinamente livre?

O compatibilismo responde que Adão fez aquilo que desejava. Entretanto, permanece a pergunta:

Quem determinou infalivelmente o acontecimento, as circunstâncias e o curso da vontade que resultou naquele desejo?

Dizer que a pessoa “fez o que quis” não estabelece liberdade suficiente quando aquilo que ela quis estava abrangido por um decreto infalível anterior à sua existência.

4. O problema torna-se mais grave na reprovação

No sistema calvinista, o não eleito:

Assim, Deus exige daquele indivíduo aquilo que decidiu não lhe conceder capacidade para realizar.

Essa construção compromete a sinceridade do convite do evangelho. Deus aparentemente diz:

“Vinde a mim todos.”

Mas, segundo o sistema, somente os previamente eleitos receberam a possibilidade eficaz de vir. Para os demais, o chamado externo não comunica uma oportunidade real de salvação.

A crítica de Jakob Andreae a Beza, no Colóquio de Montbéliard, atinge precisamente esse ponto: seria indigno atribuir a Cristo um convite aparentemente universal enquanto, por um decreto oculto, ele não desejaria que a maioria dos convidados viesse.

5. A fé verdadeira preserva a distinção entre vontade divina e resistência humana

A Bíblia não apresenta todo acontecimento como realização da vontade moral de Deus. Existem coisas que acontecem porque as criaturas resistem ao que Deus realmente deseja:

“Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos… e vós não o quisestes!”
Mateus 23.37

Há duas vontades claramente apresentadas:

O texto não diz que Cristo secretamente determinou a recusa que publicamente lamentou.

“Vós sempre resistis ao Espírito Santo.”
Atos 7.51

Resistir significa opor-se a uma atuação real do Espírito. A graça estava operando, mas não de maneira irresistível.

“Rejeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus.”
Lucas 7.30

O propósito de Deus em relação àquelas pessoas poderia ser rejeitado. Elas não frustraram a soberania divina absoluta, mas resistiram à vontade graciosa de Deus para elas.

“Não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.”
2 Pedro 3.9

A perdição acontece contra a disposição salvadora de Deus, não como realização secreta de um desejo divino pela condenação.

6. A responsabilidade moral exige uma alternativa real

Os mandamentos bíblicos são apresentados como decisões genuínas:

“Escolhei, hoje, a quem sirvais.”
Josué 24.15

“Escolhe, pois, a vida.”
Deuteronômio 30.19

“Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra.”
Isaías 1.19

“Quem quiser receba de graça a água da vida.”
Apocalipse 22.17

Essas declarações perdem sua força natural se forem reinterpretadas como:

A graça não elimina a vontade; ela desperta, convence, chama, capacita e auxilia a vontade. O ser humano não inicia sua salvação nem produz a graça, mas pode acolhê-la ou resistir-lhe.

7. A Igreja primitiva não considerava o livre-arbítrio uma negação da graça

Uma objeção calvinista comum afirma que defender o livre-arbítrio significa transformar a salvação em obra humana. Esse raciocínio é falso.

Receber um presente não significa produzi-lo. O mendigo que estende a mão não pode dizer que comprou ou mereceu o pão recebido.

Da mesma maneira:

A fé não é pagamento, mérito ou obra compensatória:

“Ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça.”
Romanos 4.5

Paulo contrasta fé e obra. Portanto, dizer que a salvação é recebida mediante uma fé não irresistivelmente determinada não transforma a fé em mérito.

8. O calvinismo pode ser mais determinista que o maniqueísmo

O escritor Baker-Brian sustenta que a caracterização do maniqueísmo como determinismo absoluto deve ser corrigida. Segundo sua análise, Mani admitia:

Em contraste, Livre-Arbítrio e Teísmo Clássico reconhece que, no calvinismo, o homem caído não pode escolher a reconciliação, não pode escolher a salvação e não pode colocar-se numa situação em que sua salvação seja mais provável. O resultado salvífico é determinado pela eleição divina.

Isso permite uma formulação provocativa, mas documentalmente defensável:

Paradoxalmente, embora o maniqueísmo seja habitualmente acusado de determinismo, uma importante interpretação contemporânea reconhece nele uma cooperação entre graça e livre-arbítrio. O calvinismo, por sua vez, aplica expressamente o determinismo à decisão mais importante da existência humana: a resposta ao chamado salvador de Deus.

9. Por que o calvinismo deve ser abandonado

O apelo ao leitor calvinista pode ser feito nestes termos:

Se você rejeitaria uma antiga gnose por dividir a humanidade em grupos de destinos previamente fixados, por que aceitaria essa mesma estrutura quando ela aparece revestida de linguagem reformada?

Se você consideraria injusto condenar alguém por uma natureza da qual não poderia escapar, por que considera justo condenar o réprobo por uma incredulidade que, segundo o sistema, ele nunca recebeu capacidade para vencer?

Se Deus condenou os sistemas gnósticos que comprometiam a liberdade e a responsabilidade humanas, não deveríamos igualmente abandonar todo sistema cristão que, embora preserve formalmente a linguagem bíblica, reproduza a mesma nocividade determinista?

Abandonar o calvinismo não significa diminuir a soberania de Deus. Significa reconhecer que o Deus soberano decidiu criar pessoas capazes de responder à sua graça. Uma soberania que permite escolhas não é uma soberania derrotada; é uma soberania suficientemente poderosa para governar sem transformar criaturas em instrumentos de um roteiro inevitável.

Conclusão proposta

A gnose determinista foi rejeitada pela Igreja primitiva porque comprometia a bondade de Deus, anulava a responsabilidade moral e dividia a humanidade segundo destinos previamente fixados. Irineu de Lião defendeu o livre-arbítrio não para exaltar a autonomia humana, mas para proteger verdades essenciais do evangelho: Deus é bom, não é autor do pecado, seus mandamentos são sinceros, sua graça pode ser acolhida ou resistida e seu juízo é perfeitamente justo.

Embora o calvinismo não compartilhe a cosmologia dualista nem o desprezo maniqueísta pela matéria, sua dupla predestinação, reprovação incondicional, graça irresistível e restrição da obra expiatória reproduzem uma estrutura igualmente nociva. O eleito será salvo porque Deus determinou eficazmente sua fé; o réprobo será condenado por não possuir uma fé que Deus decidiu não lhe conceder. Nesse sistema, a diferença final entre o salvo e o perdido não está na recepção ou resistência à graça, mas em um decreto secreto estabelecido antes da existência de ambos.

Por isso, o determinismo calvinista deve ser abandonado, assim como a Igreja abandonou e combateu as antigas construções gnósticas. O verdadeiro evangelho proclama um Deus que ama o mundo, um Cristo que morreu por todos e um Espírito que convence e chama sinceramente cada pecador. A graça toma a iniciativa, mas não destrói a vontade; capacita sem coagir, chama sem fingimento e pode ser resistida. O homem não se salva por seu livre-arbítrio, mas também não é salvo sem responder livremente à graça. Assim permanecem intactas a soberania divina, a responsabilidade humana, a sinceridade do evangelho e, sobretudo, a absoluta santidade de Deus, que jamais pode ser considerado autor do pecado e do mal.

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