Os quakers, oficialmente conhecidos como Sociedade Religiosa dos Amigos, surgiram na Inglaterra do século XVII sob a liderança de George Fox (1624–1691). O movimento nasceu em meio à insatisfação com o formalismo religioso da Igreja Anglicana e de outros grupos protestantes.
A pergunta “os quakers são uma seita?” não admite uma resposta completamente uniforme, porque o quakerismo contemporâneo está dividido em diferentes correntes. Existem quakers evangélicos, que confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador e reconhecem a inspiração da Bíblia, mas também existem grupos liberais, universalistas e até humanistas, nos quais a divindade de Cristo, a autoridade das Escrituras e outras doutrinas fundamentais podem ser negadas.
Portanto, é necessário avaliar cada ramo quaker segundo aquilo que ensina.
1. A origem do movimento
George Fox acreditava que o cristianismo institucional havia substituído a experiência espiritual pela tradição, pelos rituais e pela autoridade clerical. Ele ensinava que a pessoa poderia ter acesso direto a Deus por meio daquilo que chamou de “Luz Interior”.
O movimento começou a tomar forma por volta de 1652 e cresceu rapidamente. Seus seguidores foram apelidados de quakers, palavra derivada do verbo inglês to quake, “tremer”, possivelmente devido à exortação para que tremessem diante da Palavra do Senhor.
Os primeiros quakers enfrentaram perseguições, prisões e restrições políticas. Historicamente, ficaram conhecidos por defender:
A simplicidade;
A igualdade entre as pessoas;
A participação feminina nas reuniões;
A liberdade religiosa;
A rejeição de juramentos;
O pacifismo;
A oposição à escravidão;
A assistência aos pobres e perseguidos.
Essas contribuições sociais devem ser reconhecidas. Entretanto, boas obras e ações humanitárias não são suficientes para determinar a ortodoxia de um movimento religioso. A doutrina precisa ser examinada à luz das Escrituras.
“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva.”
Isaías 8.20
2. O que é a “Luz Interior”?
A doutrina mais característica dos quakers é a crença de que existe em cada pessoa uma capacidade de experimentar diretamente a presença e a orientação divina. Nos primeiros quakers, essa “Luz Interior” estava normalmente relacionada a Jesus Cristo, a verdadeira luz que ilumina o homem.
“Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem ao mundo.”
João 1.9
O problema não está em afirmar que o Espírito Santo orienta e ilumina o cristão. A Bíblia realmente ensina que os filhos de Deus são guiados pelo Espírito:
> “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.”
Romanos 8.14
O erro aparece quando uma impressão interior é colocada no mesmo nível ou acima da revelação objetiva das Escrituras. O coração humano não é infalível:
> “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”
Jeremias 17.9
Toda experiência espiritual deve ser examinada pela Palavra de Deus:
> “Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.”
1 João 4.1
A iluminação do Espírito nunca contradiz aquilo que o próprio Espírito revelou nas Escrituras. A Bíblia deve julgar a experiência; a experiência não pode julgar ou corrigir a Bíblia.
3. A autoridade da Bíblia
Esse é um dos pontos em que os diferentes ramos quakers mais divergem.
Os Quakers Evangélicos declaram que a Bíblia é a Palavra escrita de Deus, divinamente inspirada, e que o perdão é recebido mediante arrependimento e fé em Jesus Cristo. A organização Evangelical Friends Church, por exemplo, apresenta publicamente essas afirmações em sua declaração de fé. Nesse caso, embora existam diferenças e práticas questionáveis, não seria correto classificá-los indiscriminadamente como uma seita não cristã. Evangelical Friends Church
Em certos segmentos liberais, entretanto, a Bíblia é vista como um testemunho religioso importante, mas não necessariamente como autoridade final e infalível. A chamada revelação contínua e a experiência da comunidade podem receber uma autoridade que, na prática, relativiza o texto bíblico.
Algumas organizações quakers reconhecem abertamente que, devido à ausência de um credo obrigatório, seus membros possuem concepções muito diferentes acerca de Deus. Também afirmam que manifestações autênticas da direção divina podem ser encontradas em outras religiões. Friends General Conference
Essa posição entra em conflito com a suficiência das Escrituras:
> “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça.”
2 Timóteo 3.16
A revelação de Deus em Cristo não pode ser transformada em apenas uma experiência religiosa entre muitas.
4. Jesus Cristo e a salvação
Historicamente, muitos quakers confessaram Jesus Cristo e empregaram linguagem cristã. Atualmente, porém, nem todos os quakers entendem Jesus da mesma maneira.
Podemos identificar pelo menos três tendências:
Corrente Posição predominante
Quakers evangélicos Confessam Jesus como Filho de Deus, Salvador e Senhor
Quakers conservadores ou tradicionais Procuram preservar a espiritualidade e parte da teologia dos primeiros Amigos
Quakers liberais ou universalistas Podem considerar Jesus apenas um mestre espiritual e aceitar outras religiões como caminhos igualmente legítimos
O próprio material informativo quaker reconhece a existência de cristãos tradicionais e de pessoas que poderiam ser descritas como humanistas religiosos dentro do movimento. Quaker.org
Quando um grupo nega a divindade de Cristo, sua encarnação, morte expiatória, ressurreição corporal ou exclusividade como Salvador, esse grupo ultrapassa o limite do cristianismo bíblico:
> “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.”
João 14.6> “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.”
Atos 4.12
Não basta falar em “luz”, “amor”, “espírito” ou “experiência divina”. É indispensável confessar o Jesus revelado nas Escrituras.
5. Batismo e Ceia do Senhor
Tradicionalmente, os quakers não praticam o batismo nas águas nem celebram a Ceia do Senhor com pão e vinho. Eles entendem essas ordenanças de maneira exclusivamente espiritual.
Para eles, o verdadeiro batismo seria uma experiência interior com o Espírito, enquanto a comunhão com Cristo deveria acontecer continuamente, sem necessidade dos elementos externos. A própria Friends United Meeting explica essa interpretação. Friends United Meeting
Entretanto, essa prática se afasta do padrão estabelecido por Cristo e pelos apóstolos.
Jesus ordenou o batismo:
> “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”
Mateus 28.19
A igreja apostólica batizava aqueles que recebiam o Evangelho:
> “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra.”
Atos 2.41
Jesus também instituiu a Ceia:
> “Fazei isto em memória de mim.”
1 Coríntios 11.24
Paulo afirma que a igreja deveria continuar celebrando-a até a volta de Cristo:
> “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha.”
1 Coríntios 11.26
Embora o batismo e a Ceia não salvem, ambos foram ordenados pelo Senhor. Espiritualizar completamente essas ordenanças significa deixar de praticar mandamentos explícitos de Cristo.
6. O culto silencioso e a ausência de clero
Muitas reuniões quakers acontecem em silêncio. Os participantes aguardam até que alguém considere ter recebido uma mensagem do Espírito e se levante para compartilhá-la. Alguns grupos, especialmente os evangélicos, possuem pastores, pregação, música e uma liturgia semelhante à das igrejas protestantes.
O silêncio, por si só, não é antibíblico. A Bíblia ensina:
> “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.”
Salmo 46.10
Também é correto afirmar que todos os cristãos têm acesso direto a Deus por meio de Jesus Cristo e que a Igreja é um sacerdócio santo:
> “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo.”
1 Pedro 2.5
Entretanto, o sacerdócio de todos os crentes não elimina os ministérios estabelecidos por Cristo. O Novo Testamento menciona pastores, mestres, presbíteros e diáconos:
> “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores.”
Efésios 4.11
Também não é seguro permitir que qualquer mensagem supostamente interior seja anunciada sem julgamento doutrinário:
> “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.”
1 Coríntios 14.29
7. O pacifismo quaker
Os quakers são historicamente conhecidos por rejeitar a participação em guerras e por promover soluções pacíficas. Essa postura está relacionada às palavras de Jesus:
> “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.”
Mateus 5.9
A busca pela paz, a rejeição da vingança e o amor aos inimigos são princípios cristãos. Contudo, o pacifismo absoluto é uma interpretação particular. Romanos 13.1–4 reconhece que a autoridade civil possui responsabilidade para conter e punir o mal.
Por isso, um cristão pode admirar o testemunho quaker em favor da paz sem necessariamente aceitar todas as conclusões políticas e éticas do pacifismo absoluto.
8. Afinal, os quakers são uma seita?
A resposta precisa ser cuidadosamente definida.
No sentido sociológico
O termo “seita” pode designar simplesmente um grupo religioso surgido de uma tradição maior. Nesse sentido histórico e sociológico, os primeiros quakers foram uma seita dissidente do cristianismo inglês.
No sentido teológico e apologético
Não é correto afirmar que todos os quakers formam uma única seita herética, porque existem grupos evangélicos que confessam:
- A inspiração da Bíblia;
- A divindade de Jesus Cristo;
- A necessidade de arrependimento;
- A salvação pela fé em Cristo;
- A atuação do Espírito Santo;
- A missão evangelizadora da Igreja.
Esses grupos podem ser considerados cristãos heterodoxos ou denominacionalmente peculiares, especialmente pela rejeição do batismo e da Ceia, mas não necessariamente uma seita de perdição.
Por outro lado, devem ser considerados teologicamente sectários aqueles ramos quakers que:
- Colocam a “Luz Interior” acima das Escrituras;
- Aceitam revelações que contradizem a Bíblia;
- Negam a autoridade final da Palavra de Deus;
- Rejeitam a divindade ou a exclusividade salvadora de Cristo;
- Transformam Jesus em apenas um mestre entre outros;
- Consideram todas as religiões caminhos igualmente válidos;
- Acomodam ateísmo ou humanismo dentro de sua identidade religiosa.
Nesses casos, já não estamos diante de uma simples diferença denominacional, mas de uma negação de elementos fundamentais do cristianismo apostólico.
Conclusão
Os quakers não podem ser avaliados como se fossem um bloco doutrinário uniforme. O movimento possui uma herança histórica cristã, valores sociais respeitáveis e segmentos que ainda confessam doutrinas fundamentais do Evangelho. Contudo, sua ênfase na “Luz Interior”, a ausência de uma confissão doutrinária obrigatória, a rejeição das ordenanças e a abertura ao universalismo produziram profundas distorções em diversos de seus ramos.
Portanto, a conclusão mais precisa é:
> Nem todo quaker deve ser automaticamente classificado como membro de uma seita não cristã; porém, os segmentos liberais, universalistas ou humanistas do quakerismo, que relativizam a Bíblia e negam a exclusividade de Cristo, devem ser considerados teologicamente sectários e incompatíveis com o cristianismo bíblico.
A avaliação final não deve ser feita apenas pelo nome “quaker”, mas pela resposta que cada grupo oferece a três perguntas fundamentais: Quem é Jesus Cristo? Qual é o Evangelho? E qual é a autoridade final: a Escritura ou a experiência interior?
> “À palavra de Deus e ao testemunho de Jesus Cristo.”
Apocalipse 1.2
