O livre-arbítrio nos pais da igreja

• Agostinho “jovem” (354-430)

  • “Deus indubitavelmente deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade; mas não lhes tirando o livre-arbítrio, pelo bom ou o mau uso do qual é que poderão ser justamente julgados”

Obra: De Spiritu et Littera (O Espírito e a Letra). Localização: Capítulo 33, parágrafo 58 (ou 33, 57 em algumas edições).

  • “Deus não opera a salvação em nós como se tivesse lidando com pedras irracionais, ou com criaturas que não tenham recebido nem razão, nem vontade própria”.

Fonte: Do Perdão dos pecados e do Batismo, 2.28 – Agostinho.

• Teodoreto (393-466)

  • “Aqueles cuja intenção Deus previu, Ele predestinou desde o princípio. Aqueles que predestinou, Ele chamou e justificou pelo batismo. Os que foram justificados, Ele glorificou, chamando-os filhos (…) Que ninguém diga que a presciência de Deus foi a causa unilateral dessas coisas. Não foi sua presciência que justificou as pessoas, mas Deus sabia o que aconteceria, porque Ele é Deus”. ( Obra: Interpretatio in Epistolam ad Romanos (Comentário à Epístola aos Romanos).

Referência: Comentário ao capítulo 8, versículos 29 e 30.)

• Eusébio de Cesareia (265-339)

  • “O conhecimento prévio dos eventos não é a causa de que tenham ocorrido. As coisas não ocorrem [somente] porque Deus sabe. Quando as coisas estão para ocorrer, Deus o sabe”.

Fonte: Praeparatio Evangelica “Preparação Evangélica”. Localização: Livro VI, Capítulo 11 VI, 11.

• Atanásio de Alexandria (295-373)

  • “Pois, naturalmente, uma vez que a Palavra de Deus está acima de todos, quando Ele ofereceu Seu próprio templo e instrumento corpóreo como um substituto para a vida de todos, Ele cumpriu em morte todo o que era exigido”
  • “Foi tarefa própria ao Verbo restaurar o corruptível para a incorrupção e colocar acima de tudo a glória de Deus. Por ser precisamente Verbo de Deus, superior a toda criatura, somente Ele pode criar novamente todas as coisas e assumir a representação de todos os homens perante o Pai”
  • “Todos os homens estavam sujeitos à corrupção da morte. Substituindo a todos nós, o Verbo tomou um corpo semelhante ao nosso, entregando-o à morte e oferecendo ao Pai […] Dessa maneira, morrendo todos nEle, pode ser abolida a lei universal da mortalidade humana. A exigência da morte foi satisfeita no corpo do Senhor e, doravante, deixa de atingir os homens feitos semelhantes a Cristo. Aos homens que se haviam entregue à corrupção foi restituída a incorrupção e, mediante a apropriação do corpo de Cristo e de sua ressurreição, os homens foram redivivos da morte”
  • “Portanto, desejando ajudar os homens, ele o Verbo habitou com os homens tomando forma de homem, tomando para si mesmo um corpo semelhante ao dos outros homens. Através das coisas sensoriais, isto é, mediante as ações de seu corpo, ele os ensinou que os que estavam privados de reconhecê-lo, mediante sua orientação e providência universais, podem por meio das ações de seu corpo reconhecer a Palavra de Deus encarnada e através dEle vir ao conhecimento do Pai”
As citações encontram-se em diferentes capítulos do livro: A primeira frase, sobre a oferta do “templo e instrumento corpóreo” como substituto pela vida de todos, é do Capítulo 9. A segunda e terceira frases, que tratam da restauração da incorrupção e da satisfação da lei da morte no corpo de Cristo, estão localizadas no Capítulo 7 e no Capítulo 8, respectivamente. A quarta frase, sobre o Verbo habitando com os homens para que O reconhecessem através de Suas ações corporais, é do Capítulo 14.

• João Crisóstomo (347-407)

  • “Porquanto Deus pôs em nosso poder o bem e o mal, deu-nos o livre-arbítrio da escolha, e quando não queremos não nos força; quando, porém, queremos, nos abraça” e a frase similar “Deus, tendo colocado o bem e o mal em nosso poder…”

Fonte: Homilias sobre a Primeira Epístola a TimóteoHomilia in 1 Timotheum. Localização: Homilia 5.)

  • “Não raro, aquele que é mau, se for desejado, muda-se em bom; e aquele que é bom, por inércia, cai e se torna mau, porquanto o Senhor nos fez com uma natureza dotada do livre-arbítrio. Nem impõe ele necessidade. Pelo contrário, providos os remédios apropriados, tudo deixa ficar ao arbítrio do enfermo”

Fonte: Homilias sobre a Primeira Epístola a TimóteoHomilia in 1 Timotheum. Localização: Homilia 8.)

  • “Assim como nada jamais podemos fazer retamente, a não ser se ajudados pela graça de Deus, assim também, a menos que tenhamos de acrescentar o que é nosso, não poderemos alcançar o favor supremo”.

Fonte: Homilias sobre a Epístola aos RomanosHomilia in Epistulam ad Romanos. Localização: Homilia 25 – sobre Romanos 8:28).

  • “Tudo está sob o poder de Deus, mas de um modo que nosso livre-arbítrio não é perdido […] Ele depende, entretanto, de nós e dele. Devemos primeiro escolher o bem, e, então, ele acrescenta o que lhe pertence. Ele não precede nosso querer, aquilo que nosso livre-arbítrio não suporta. Mas quando nós escolhemos, então ele nos proporciona muita ajuda. […] Cabe a nós escolher de antemão e querer, mas cabe a Deus aperfeiçoar e concretizar”.

Fonte: Homilias sobre a Epístola aos RomanosHomilia in Epistulam ad Romanos. Localização: Homilia 17  – sobre Romanos 8:5).

• Ambrósio de Milão (340-397)

  • “Ele quer ter para si todos os homens que criou. Possas tu, ó homem, não fugir para longe de Cristo, não te esconder dele! E, todavia, ele procura ainda aqueles que se escondem”

Fonte: De Paenitentia (A Penitência) [4.1]. Localização: Livro II, Capítulo 3, parágrafo 15 (II.3.15).

• Jerônimo (347-420)

  • “Nosso é o começar, de Deus, porém, o terminar; nosso, oferecer o que podemos, dele prover o que não podemos”.

(Fonte: Dialogus adversus Pelagianos – Diálogo contra os Pelagianos. Localização: Livro III, Capítulo 1. Nesta passagem, Jerônimo resume a sinergia entre a vontade humana e a graça divina.

  • “E em vão que você tem uma ideia falsa a meu respeito e tenta convencer o ignorante de que eu condeno o livre-arbítrio…”.

(Fonte: Epistula 133  – Carta a Ctesifonte. Localização: Parágrafo 5. Jerônimo escreve a Ctesifonte para refutar a acusação de que, ao defender a graça, ele estaria negando o livre-arbítrio.)

  • “Deus nos criou com livre-arbítrio e não somos forçados pela necessidade nem à virtude nem ao vício…”.

Fonte: Adversus Jovinianum (Contra Joviniano) ou Dialogus adversus PelagianosLocalização: Frequentemente citada em conjunto com o Livro III do Diálogo contra os Pelagianos. Jerônimo enfatiza que a liberdade é condição para a moralidade (a “coroa” do mérito), mas que a perfeição final vem de Deus.

• Orígenes de Alexandria (185-253)

  • “O livre-arbítrio é a faculdade da razão para discernir o bem ou o mal, a faculdade da vontade para escolher um ou outro desses dois”

FonteDe Principiis (Peri Archon). Localização: Livro III, Capítulo 1, Seção 2 (III.1.2) [1.1].

  • “Ora, deve ser conhecido que os santos apóstolos, na pregação da fé de Cristo, pronunciaram-se com a maior clareza sobre certos pontos que eles criam ser necessários para todo mundo. […] Isso também é claramente definido no ensino da Igreja de que cada alma racional é dotada de livre-arbítrio e volição”

    • Fonte: De Principiis (Peri Archon). Localização: Prefácio, Seção 5 [2.1].
  • “Há, de fato, inúmeras passagens nas Escrituras que estabelecem com extrema clareza a existência da liberdade da vontade”

Fonte: De Principiis (Peri Archon). Localização: Livro III, Capítulo 1, Seção 7 (III.1.7) [3.1].

• Metódio de Olimpos (†311)

  • “Ora, aqueles que decidem que o ser humano não possui livre-arbítrio, e afirmam que ele é governado pelas necessidades inevitáveis do destino […] são culpados de impiedade para com o próprio Deus, fazendo-o ser a causa e o autor dos males humanos”
Fonte e Contexto: Esta citação é encontrada em sua obra “Sobre o Livre-Arbítrio” (De Autexusio), conforme preservado por Fócio em sua Biblioteca. Obra: De Autexusio (Sobre o Livre-Arbítrio), citado na Biblioteca de Fócio, Códice 234.
  • “Eu digo que o ser humano foi feito com livre-arbítrio, não como se já houvesse algum mal existente, que ele tinha o poder de escolher se quisesse […], mas que o poder de obedecer e desobedecer a Deus é a única causa”
Fonte e Contexto: Esta ideia central sobre a natureza do livre-arbítrio é expressa em sua obra principal, “O Banquete das Dez Virgens”. Obra: Symposium (O Banquete das Dez Virgens). Localização: Discurso 8, Capítulo 16 (VIII.16).

• Arquelau de Atenas (Séc.V)

  1. “Todas as criaturas que Deus fez, ele fez muito boas, e deu a cada indivíduo o senso de livre-arbítrio, de acordo com o padrão que ele também instituiu na lei de julgamento. Pecar é característica nossa, e nosso pecado não é dom de Deus, já que nossa vontade é constituída de modo a escolher tanto pecar quanto não pecar”.

Fonte: Acta disputationis Archelai episcopi et Manetis haeresiarchae (Atas da Disputa entre o Bispo Arquelau e o Heresiarca Manes) ou, mais simplesmente, a obra de Hegemônio, Contra Archelaum.

• Arnóbio de Sicca (†330)

  • “Aquele que convida a todos não liberta igualmente a todos? Ou não empurra ele de volta ou repele qualquer um para longe da amabilidade do Supremo que dá a todos igualmente o poder de vir a ele? – A todos, ele diz, a fonte da vida está aberta, e ninguém é impedido ou retido de beber”
  • “Mais ainda, meu oponente diz que, se Deus é poderoso, misericordioso, desejando salvar-nos, que mude as nossas disposições e nos force a confiar em suas promessas. Isso, então, é violência, não é amabilidade nem generosidade do Deus supremo, mas uma luta vã e pueril na busca da obtenção do domínio. Pois o que seria tão injusto como forçar homens que são relutantes e indignos, reverter suas inclinações; imprimir forçadamente em suas mentes o que eles não estão desejando receber, e têm horror de…”

Fonte: Adversus Nationes (Contra os Pagãos).

• Basílio Magno (329-379)

  • “Eles, então, que foram selados pelo Espírito até o dia da redenção e preservaram puros e intactos os primeiros frutos que receberam do Espírito, ouvirão as palavras: ‘Muito bem, servos bons! Como fostes fiéis no mínimo, tomai o governo de muitas coisas’. Da mesma forma, os que ofenderam o Espírito Santo pela maldade de seus caminhos, ou não forjaram para si o que Ele lhes deu, serão privados do que receberam e sua graça será dada a outros; ou, conforme um dos evangelistas, serão totalmente cortados em pedaços, cujo significado é ser separado do Espírito”

Obra: De Spiritu Sancto (Sobre o Espírito Santo). Localização: Capítulo 20, Parágrafo 51.

• Gregório de Nissa (330-395)

  • “Sendo à imagem e semelhança […] do Poder que governa todas as coisas, o ser humano manteve também na questão do livre-arbítrio esta semelhança a ele cuja vontade domina tudo”. 

Obra: De Virginitate (Sobre a Virgindade). Localização: Capítulo XII (12).

• Irineu de Lyon (130-202)

Obra: Adversus Haereses (Contra as Heresias). Localização: Livro IV, Capítulo 37, Seção 2 (IV.37.2).

  • “O Senhor, pois, nos remiu através de seu sangue, dando sua vida em favor da nossa vida, sua carne por nossa carne. Derramou o Espírito do Pai para que fosse possível a comunhão de Deus e do homem. Trouxe Deus aos homens mediante o Espírito, e levou os homens a Deus mediante sua encarnação”

Obra: Adversus Haereses (Contra as Heresias). Localização: Livro V, Prefácio ou Capítulo 1, Seção 1 (V. Pref.; V.1.1).

  • “Por isso, dizia aquele presbítero: não devemos nos sentir orgulhosos nem reprovar os antigos; ao contrário, devemos temer; não ocorra que, depois de conhecermos a Cristo, façamos aquilo que não agrada a Deus e, consequentemente, já não nos sejam perdoados os nossos pecados, nos excluindo de seu Reino. Paulo disse a este propósito: ‘Se não perdoou os ramos naturais, tampouco te perdoará, pois sois oliveira silvestre enxertada nos ramos da oliveira [boa] e recebes [vida] da sua seiva'”

Obra: Adversus Haereses (Contra as Heresias). Localização: Livro V, Prefácio ou Capítulo 1, Seção 1 (V. Pref.; V.1.1).

• Atenágoras de Atenas (133-190)

  • “Justamente como homens que possuem liberdade de escolha assim como virtude e defeito (porque você não honraria tanto o bom quanto puniria o mau, a menos que o defeito e a virtude estivessem em seu próprio poder, e alguns são diligentes nos assuntos confiados a eles, e outros são infiéis), assim são os anjos”

Obra: Legatio pro Christianis (Súplica em Favor dos Cristãos). Localização: Capítulo 24.

• Teófilo de Antioquia (†186)

  • “Deus fez o homem livre, e esse poder sobre si próprio […] Deus lhe concede como um dom por filantropia e compaixão, quando o homem lhe obedece. Pois como o homem, desobedecendo, atraiu morte sobre si próprio, assim, obedecendo ã vontade de Deus, aquele que deseja é capaz de obter para si mesmo a vida eterna”.

Obra: Ad Autolycum (A Autólico). Localização: Livro II, Capítulo 27 (II.27).

• Taciano, o Sírio (120-180)

  • “Viva para Deus e, apreendendo-o, coloque de lado sua velha natureza. Não fomos criados para morrer, mas morremos por nossa própria falha. Nosso livre-arbítrio nos destruiu, nós que fomos livres nos tornamos escravos; fomos vendidos pelo pecado. Nada de mal foi criado por Deus; nós próprios manifestamos impiedade; mas nós, que a temos manifestado, somos capazes de rejeitá-la novamente”

Obra: Oratio ad Graecos (Discurso contra os Gregos). Localização: Capítulo 11.

• Bardesano da Síria (154-222)

  • “Como é que Deus não nos fez de modo que não pecássemos e não incorrêssemos na condenação? Se o ser humano fosse feito assim, não teria pertencido a si mesmo, mas seria instrumento daquele que o moveu. […] E como, nesse caso, diferiria de uma harpa, sobre a qual outro toca; ou de um navio, que outra pessoa dirige: onde o louvor e a culpa residem na mão do músico ou do piloto, […] eles sendo somente instrumentos feitos para uso daquele em quem está a habilidade? Mas Deus, em sua benignidade, escolheu fazer assim o ser humano; pela liberdade ele o exaltou acima de muitas de suas criaturas”.

Obra: The Book of the Laws of Countries (O Livro das Leis dos Países). Localização: Frequentemente encontrada em seções que discutem o livre-arbítrio em oposição ao destino ou à astrologia. A citação completa pode ser encontrada em fontes patrísticas que preservaram a obra.

• Clemente de Alexandria (150-215)

  • “Mas nós, que temos ouvido pelas Escrituras que a escolha auto-determinadora e a recusa foram dadas pelo Senhor ao ser humano, descansamos no critério infalível da fé, manifestando um espírito desejoso, visto que escolhemos a vida e cremos em Deus através de sua voz”

Obra: Stromata (Miscelâneas), também conhecida como TapetesLocalização: Livro II, Capítulo 4 (II.4).

Obra: Stromata (Miscelâneas). Localização: Livro I, Capítulo 17 (I.17).

• Clemente de Roma (35-97)

Obra: 1 Clemente (Primeira Epístola aos Coríntios). Localização: Capítulo 28, Parágrafo 1 (28.1).

• Tertuliano (160-220)

Obra: Adversus Marcionem (Contra Marcião). Localização: Livro II, Capítulo 5 ou 6 (II.5 ou II.6).

• Novaciano de Roma (†258)

Obra: De Trinitate (Tratado sobre a Trindade).

• Justino de Roma (100-165)

  • “Deus, no desejo de que homens e anjos seguissem sua vontade, resolveu criá-los livres para praticar a retidão. Se a Palavra de Deus prediz que alguns anjos e homens certamente serão punidos, isso é porque ela sabia de antemão que eles seriam imutavelmente ímpios, mas não porque Deus os criou assim. De forma que quem quiser, arrependendo-se, pode obter misericórdia”

Obra: Dialogus cum Tryphone Iudaeo (Diálogo com Trifão).

Obra: I Apologia (Primeira Apologia). Localização: Capítulo 10, Parágrafo 4 (X.4).

Obra: I Apologia (Primeira Apologia). Localização: Capítulo 43 (XLIII).

• Didaquê (Séc.I)

Obra: Didaquê (A Doutrina dos Doze Apóstolos). Localização: Capítulo 16, Seções 1 e 2 (16.1-2).

• Sínodo de Arles – Proposições Condenadas (473)

• Sínodo de Orange (529)

• Conclusão

A doutrina cristã do livre-arbítrio é fundamental porque estabelece a responsabilidade moral do ser humano perante Deus. Ao conceder a capacidade de escolher entre o bem e o mal, Deus permite que as decisões sejam tomadas de forma autônoma, e não por um determinismo ou destino inevitável, distinguindo o ser humano de robôs ou meros instrumentos. Isso é crucial para que haja justiça no julgamento divino, pois o mérito ou a culpa residem na escolha individual, e não em Deus ser o autor do mal. Desse modo, a doutrina permite a existência de uma relação genuína de amor e obediência a Deus por livre e espontânea vontade, e não por coerção, sendo a base para o crescimento espiritual e a busca pela vida eterna.

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NOTA: Na confirmação de todas as fontes, além da biblioteca do CACP, foram usados a IA do Google e do GPT.

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