Nota editorial: O presente artigo foi preparado a partir de material datilografado pelo Pr. Natanael Rinaldi, pesquisador e um dos grandes nomes da apologética cristã brasileira. O texto foi reorganizado editorialmente para facilitar a leitura, preservando sua argumentação, suas referências e seu caráter apologético. O documento original é datado de São Paulo, julho de 1988.
INTRODUÇÃO
Pense em todas as religiões do mundo. Todas afirmam estar seguindo o caminho de Deus. Pense nos milhões de hindus na Índia, tão convencidos de que sua religião é a certa. Pense nos milhões de muçulmanos que creem que Alá é o Deus verdadeiro e Maomé, seu profeta. Os católicos afirmam que sua religião foi fundada por Cristo e que é a única religião verdadeira. Adventistas do Sétimo Dia, mórmons, Testemunhas de Jeová, Ciência Cristã, Igreja Messiânica Mundial, Legião da Boa Vontade, esoterismo, umbanda, espiritismo kardecista e tantos outros grupos religiosos também afirmam possuir a verdade.
Todavia, essas religiões não podem estar todas certas ao mesmo tempo, pois ensinam coisas diametralmente opostas.
Jesus advertiu:
“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela.”
Mateus 7.13
As Testemunhas de Jeová igualmente reivindicam exclusividade religiosa. Ao longo de sua literatura, a Sociedade Torre de Vigia apresentou-se como a única religião correta e como a organização visível escolhida por Deus.
É justamente essa pretensão que precisamos analisar à luz das Escrituras.
A questão fundamental não é: “O que a Torre de Vigia afirma sobre si mesma?”
A pergunta correta é:
Suas doutrinas e sua história confirmam essa reivindicação?
AS CARACTERÍSTICAS DA VERDADEIRA RELIGIÃO
Em sua própria literatura, a Sociedade Torre de Vigia apresentou características que identificariam a religião verdadeira, entre elas:
- Santificação do nome de Deus;
- Proclamação do Reino de Deus;
- Respeito pela Palavra de Deus;
- Manter-se separado do mundo;
- Amor entre si.
O problema surge quando aplicamos esses mesmos critérios à própria organização.
Será que as Testemunhas de Jeová passam no teste estabelecido por sua própria literatura?
1. A QUESTÃO DO NOME DE DEUS
As Testemunhas de Jeová colocam enorme ênfase sobre o nome “Jeová” e chegam a argumentar que a cristandade teria deixado de utilizar corretamente o nome divino.
Entretanto, a própria literatura da Torre de Vigia reconheceu uma dificuldade fundamental: não possuímos hoje certeza absoluta sobre a pronúncia original do Tetragrama hebraico YHWH.
Isso ocorre porque o hebraico antigo era escrito originalmente sem as vogais como as conhecemos em nosso sistema moderno. Assim, embora saibamos quais são as quatro consoantes do nome divino, a pronúncia exata tornou-se objeto de discussão.
Além disso, quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos algo extremamente significativo: os apóstolos apresentam Jesus Cristo como o nome central da proclamação cristã.
Pedro declarou:
“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.”
Atos 4.12
No livro de Atos, encontramos repetidamente a importância do nome de Jesus:
- pessoas são curadas em nome de Jesus (At 3.6,16; 4.10,30);
- a salvação é anunciada em seu nome (At 4.12);
- o ensino e a pregação são realizados em seu nome (At 4.18; 5.28);
- os discípulos sofrem por seu nome (At 5.41; 9.16);
- Paulo recebe a missão de levar seu nome às nações (At 9.15);
- os cristãos são identificados com o nome de Cristo.
Jesus ensinou seus discípulos a se dirigirem a Deus como Pai (Mt 6.9). Na oração cristã encontramos ainda a expressão:
“Aba, Pai.”
Romanos 8.15; Gálatas 4.6
Portanto, a espiritualidade cristã do Novo Testamento não é construída em torno de uma pronúncia específica do Tetragrama, mas da revelação de Deus em Cristo e do relacionamento dos filhos de Deus com o Pai.
2. A PROCLAMAÇÃO DO REINO DE DEUS
É verdade que o cristão deve proclamar o Reino de Deus. O Evangelho precisa ser anunciado.
Mas qual é o centro dessa mensagem?
Jesus Cristo.
A esperança cristã não consiste em simplesmente pertencer a uma organização religiosa ou sobreviver ao Armagedom mediante fidelidade institucional.
A Bíblia apresenta Cristo como o único Salvador:
“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.”
João 14.6
A Escritura também declara:
“Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem.”
1 Timóteo 2.5
A salvação não está condicionada à filiação à Sociedade Torre de Vigia. Ela está vinculada à pessoa e à obra de Jesus Cristo.
Cristo é suficiente.
Nenhuma organização religiosa pode ocupar o lugar que pertence exclusivamente ao Salvador.
3. RESPEITO PELA PALAVRA DE DEUS
Aqui encontramos um dos problemas mais graves.
As Testemunhas de Jeová afirmam respeitar profundamente a Bíblia. Entretanto, sua interpretação das Escrituras está condicionada ao ensino oficial da organização.
A própria literatura da Torre de Vigia atribuiu ao chamado “escravo fiel e discreto” a função de transmitir orientação espiritual aos seus membros.
Na prática, cria-se uma estrutura na qual o membro dificilmente pode chegar a uma conclusão bíblica que contrarie a interpretação oficial da organização.
Isso inverte a ordem correta.
Não devemos interpretar a Bíblia pela organização.
Devemos julgar a organização pela Bíblia.
Os bereanos foram elogiados justamente porque conferiam nas Escrituras aquilo que lhes era ensinado:
“Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim.”
Atos 17.11
Nenhuma igreja, denominação, organização ou liderança religiosa possui autoridade para colocar-se acima da Palavra de Deus.
Quando a interpretação institucional se torna intocável, deixa-se de examinar livremente as Escrituras.
4. MANTER-SE SEPARADO DO MUNDO
A Sociedade Torre de Vigia interpreta a separação do mundo de maneira peculiar.
Historicamente, as Testemunhas de Jeová foram orientadas a evitar diversas práticas sociais, cívicas e culturais, entre elas:
- comemorar o Natal;
- comemorar aniversários;
- saudar a bandeira;
- prestar serviço militar;
- participar de solenidades cívicas;
- cantar o hino nacional;
- votar e participar de determinados processos políticos;
- receber transfusão de sangue.
Entretanto, precisamos perguntar:
É isso que a Bíblia quer dizer quando ordena que o cristão não pertença ao mundo?
Jesus ensinou que seus discípulos estão no mundo, embora não pertençam espiritualmente ao sistema pecaminoso deste mundo.
A separação bíblica é primordialmente moral e espiritual, e não simplesmente isolamento cultural ou social.
É possível alguém recusar aniversários, bandeiras ou determinadas cerimônias e, ainda assim, permanecer longe de Deus.
Santidade não é isolamento institucional.
Santidade é pertencer a Deus.
5. AMOR ENTRE SI
O amor é uma das maiores marcas do verdadeiro cristianismo.
Jesus declarou:
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.”
João 13.35
Entretanto, o tratamento dispensado a pessoas expulsas ou desligadas da organização levanta uma séria questão.
A literatura da Torre de Vigia historicamente desencorajou seus membros de manter relacionamento normal com pessoas consideradas desassociadas.
Isso pode produzir situações dolorosas envolvendo amizades e até relacionamentos familiares.
Evidentemente, a Bíblia ensina disciplina eclesiástica.
Mas disciplina bíblica tem finalidade restauradora, não simplesmente punitiva.
Paulo escreveu:
“Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão.”
Gálatas 6.1
A disciplina cristã deve buscar arrependimento, reconciliação e restauração.
OUTRAS RAZÕES PARA REJEITAR A PRETENSÃO DA TORRE DE VIGIA
Além desses cinco critérios, existem problemas ainda mais profundos que precisam ser considerados.
6. DOUTRINAS FUNDAMENTAIS CONTRÁRIAS AO CRISTIANISMO HISTÓRICO
O sistema doutrinário das Testemunhas de Jeová diverge de doutrinas fundamentais sustentadas historicamente pela Igreja Cristã.
Entre os pontos destacados no documento original estão:
a) negação da doutrina da Trindade;
b) negação da plena divindade de Jesus Cristo;
c) compreensão particular da ressurreição de Cristo;
d) negação da personalidade e divindade do Espírito Santo;
e) negação da sobrevivência consciente da alma após a morte;
f) negação do inferno como castigo consciente;
g) interpretações próprias acerca da segunda vinda de Cristo.
Não estamos falando, portanto, de diferenças secundárias como formas de culto, usos e costumes ou sistemas administrativos.
Estamos tratando de questões relacionadas à própria identidade de Deus, de Cristo, do Espírito Santo e da salvação.
Paulo advertiu:
“Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado […] com razão o sofreríeis.”
2 Coríntios 11.4
A pergunta inevitável é:
O Jesus apresentado pela Torre de Vigia é o mesmo Jesus revelado no Novo Testamento?
Essa é uma questão decisiva.
7. A TRADUÇÃO DO NOVO MUNDO
A Sociedade Torre de Vigia produziu sua própria versão das Escrituras, conhecida como Tradução do Novo Mundo.
O problema apontado pelo Pr. Natanael Rinaldi não é simplesmente o fato de uma organização religiosa produzir uma tradução bíblica.
A questão é se determinadas opções de tradução foram influenciadas pelas doutrinas previamente defendidas pela própria organização.
Entre os exemplos tradicionalmente discutidos estão passagens relacionadas à divindade de Cristo e à personalidade do Espírito Santo.
Um dos casos mais conhecidos é João 1.1.
O texto bíblico declara:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
A Tradução do Novo Mundo adotou uma formulação diferente para a última expressão, coerente com sua cristologia.
Esse tipo de decisão levanta uma questão metodológica fundamental:
A doutrina deve nascer da tradução do texto bíblico ou a tradução do texto bíblico deve ser adaptada à doutrina previamente estabelecida?
Para o cristão comprometido com a autoridade das Escrituras, a resposta é clara.
A Bíblia deve corrigir nossa teologia.
Nossa teologia jamais deve corrigir a Bíblia.
8. AS FALSAS EXPECTATIVAS PROFÉTICAS
Talvez um dos pontos historicamente mais importantes apresentados no documento seja o histórico de expectativas proféticas associadas a determinadas datas.
O material de Natanael Rinaldi reúne declarações publicadas pela literatura ligada à Torre de Vigia referentes especialmente aos anos:
1914
Publicações antigas associaram esse período a grandes acontecimentos escatológicos e ao Armagedom.
1925
Criou-se expectativa envolvendo o retorno de personagens bíblicos do Antigo Testamento e acontecimentos relacionados ao estabelecimento da nova ordem.
1941
Novamente aparecem declarações enfatizando a extrema proximidade do Armagedom.
1975
Esse período tornou-se particularmente conhecido pela expectativa criada em torno do término de aproximadamente seis mil anos da existência humana.
Posteriormente, a própria literatura da organização reconheceu que alguns membros alimentaram expectativas equivocadas.
Entretanto, a questão permanece:
Como uma organização que reivindica orientação singular de Deus pode apresentar repetidamente expectativas proféticas que não se concretizam como anunciado ou esperado?
A Bíblia estabelece um princípio muito sério:
“Quando o tal profeta falar em nome do Senhor, e tal palavra se não cumprir, nem suceder assim, esta é palavra que o Senhor não falou.”
Deuteronômio 18.22
O cristão deve ser extremamente cauteloso diante de qualquer organização que reivindique autoridade divina especial enquanto acumula um histórico de expectativas proféticas frustradas.
O PROBLEMA DA “LUZ PROGRESSIVA”
Diante das mudanças doutrinárias ocorridas ao longo da história da organização, frequentemente se recorre à ideia de “luz progressiva”, usando especialmente Provérbios 4.18:
“Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.”
Contudo, o contexto desse texto não está ensinando que uma organização pode anunciar uma doutrina como verdade divina, posteriormente substituí-la por outra e justificar a contradição dizendo que recebeu mais luz.
O contraste de Provérbios é entre o caminho do justo e o caminho do ímpio.
Há uma diferença entre crescimento no conhecimento bíblico e contradição doutrinária.
Um cristão pode compreender melhor determinada doutrina ao longo do tempo.
Isso é natural.
O problema ocorre quando uma instituição reivindica autoridade divina para ensinar algo e posteriormente ensina o contrário.
Verdade progressivamente compreendida não significa verdade contraditória.
Deus não precisa corrigir aquilo que Ele próprio revelou.
O GRANDE PERIGO: A ORGANIZAÇÃO NO LUGAR DE CRISTO
Chegamos, então, ao problema central.
Quando uma organização religiosa começa a apresentar-se como o único canal pelo qual Deus comunica a verdade à humanidade, cria-se um enorme perigo espiritual.
A lealdade a Cristo pode gradualmente ser confundida com lealdade à instituição.
Questionar a instituição passa a ser interpretado como questionar Deus.
Abandonar a organização passa a ser apresentado praticamente como abandonar a verdade.
Mas o Novo Testamento nunca disse:
“Vinde à organização.”
Jesus disse:
“Vinde a mim.”
Mateus 11.28
A Igreja não salva.
Uma denominação não salva.
O CACP não salva.
Nenhuma organização humana salva.
Jesus Cristo salva.
Pedro declarou:
“Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.”
João 6.68
Observe que Pedro não perguntou:
“Para qual organização iremos?”
Ele perguntou:
“Para quem iremos?”
A resposta do Evangelho não é uma instituição.
A resposta é uma Pessoa.
Jesus Cristo.
CONCLUSÃO
À luz dos argumentos apresentados pelo Pr. Natanael Rinaldi, a reivindicação de que a Sociedade Torre de Vigia seja a única organização visível de Deus na Terra não se sustenta simplesmente porque a própria organização assim o afirma.
Toda reivindicação religiosa precisa ser examinada pela Palavra de Deus.
O histórico doutrinário da Torre de Vigia, sua interpretação peculiar de doutrinas cristãs fundamentais, as controvérsias relacionadas à Tradução do Novo Mundo, sua autoridade interpretativa centralizada e as expectativas proféticas frustradas constituem razões sérias para rejeitar sua pretensão de exclusividade espiritual.
Paulo estabeleceu um princípio que continua válido:
“Examinai tudo. Retende o bem.”
1 Tessalonicenses 5.21
Nossa fé não pode estar fundamentada em homens, organizações, corpos governantes ou instituições religiosas.
O fundamento da Igreja é Cristo.
A autoridade doutrinária é a Palavra de Deus.
E o Evangelho não chama o pecador para tornar-se dependente de uma organização.
O Evangelho chama o pecador para reconciliar-se com Deus por meio de Jesus Cristo.
Por isso, diante de qualquer organização que reivindique ser o único canal de Deus na Terra, devemos fazer a mesma coisa que os bereanos fizeram:
abrir a Bíblia e conferir se aquilo que está sendo ensinado realmente está de acordo com a Palavra de Deus.
Autor
Pr. Natanael Rinaldi
Pesquisador e apologista cristão
São Paulo, julho de 1988
Edição e adaptação para publicação digital: CACP — Centro Apologético Cristão de Pesquisas
CACP — fazendo pela verdade o que as seitas fazem pela mentira.
