A Canonicidade de Hebreus

A aceitação da Epístola aos Hebreus no cânon do Novo Testamento está profundamente ligada ao princípio da apostolicidade. A Igreja Primitiva entendia que um livro só poderia ser reconhecido como inspirado se estivesse ligado direta ou indiretamente a um apóstolo. Por isso, Hebreus foi debatida em algumas regiões da Igreja, especialmente no Ocidente, devido ao fato de o autor não se identificar nominalmente no texto. Ainda assim, prevaleceu na Igreja antiga o entendimento de que a epístola possuía origem paulina.

Eusébio de Cesareia preserva em sua História Eclesiástica testemunhos fundamentais sobre esse assunto.

No Livro VI, capítulo 14, Eusébio registra o testemunho de Clemente de Alexandria:

“A Epístola aos Hebreus é de Paulo; foi escrita aos hebreus em língua hebraica, e Lucas a traduziu cuidadosamente e a publicou aos gregos.”

(História Eclesiástica, VI.14.2-3)

Esse testemunho é extremamente importante porque mostra que Clemente aceitava claramente a autoria paulina de Hebreus, atribuindo apenas a Lucas a possível tradução ou redação final em grego.

Ainda no Livro VI, capítulo 25, Eusébio preserva a famosa declaração de Orígenes:

“Os pensamentos são do apóstolo, mas o estilo e a composição pertencem a alguém que registrou de memória os ensinamentos apostólicos… Quem escreveu a epístola, somente Deus sabe.”

(História Eclesiástica, VI.25.11-14)

Observe que Orígenes não negava a origem paulina da epístola. Pelo contrário, afirmava explicitamente que “os pensamentos são do apóstolo”. Sua dúvida recaía apenas sobre o redator final da forma literária do texto.

Além disso, no Livro III, capítulo 3, Eusébio inclui Hebreus entre as cartas paulinas reconhecidas pela Igreja:

“As catorze epístolas de Paulo são claras e evidentes.”

(História Eclesiástica, III.3.5)

O detalhe é decisivo: Eusébio fala em “catorze epístolas”. Paulo possui treze cartas identificadas nominalmente no Novo Testamento; portanto, a décima quarta só pode ser Hebreus.

Também no Livro III, capítulo 25, Eusébio enumera os livros reconhecidos pela Igreja e novamente coloca Hebreus dentro do conjunto paulino.

Outros Pais da Igreja reforçam essa tradição antiga.

Jerônimo escreveu:

“Ela é considerada de Paulo não apenas pelas igrejas do Oriente, mas também por todos os escritores gregos antigos.”

(Dos Homens Ilustres, cap. 5)

Agostinho de Hipona igualmente reconheceu Hebreus como paulina, aceitando-a no cânon juntamente com as demais epístolas do apóstolo.

Além disso, os concílios regionais de Hipona (393) e Cartago (397), ao reconhecerem formalmente os 27 livros do Novo Testamento, incluíram Hebreus entre as cartas paulinas.

Portanto, historicamente, a própria canonização de Hebreus serve como forte evidência de que a Igreja Primitiva reconheceu nela autoridade apostólica paulina. Sem essa convicção, dificilmente a epístola teria sido aceita no cânon sagrado das Escrituras.

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