As acusações do envolvimento de Agostinho e o paganismo no cristianismo vieram de adversários teológicos durante a controvérsia pelagiana. Assim, é correto dizer que houve acusações históricas de permanência de infiltração maniqueias pagã na soteriologia do Bispo de Hipona.
1. Juliano de Eclano acusou Agostinho de permanecer maniqueu
A acusação histórica mais conhecida contra Agostinho foi feita por Juliano de Eclano, um dos envolvidos na controvérsia com o pelagianismo. Juliano afirmava repetidamente que Agostinho jamais abandonara completamente sua antiga mentalidade maniqueia. Segundo ele:
- a doutrina do pecado original preservava elementos do dualismo maniqueu;
- a concupiscência era tratada como um mal inerente à natureza humana (logo, nada prestava mais no homem e nem havia nenhuma “imago dei”);
- a visão pessimista da natureza humana era incompatível com a tradição dos Pais Gregos.
Fontes
- Agostinho, Contra Julianum, especialmente I.2; II.10; III.26.
- Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, Vol. 5.
- Gerald Bonner, St. Augustine of Hippo: Life and Controversies.
2. A doutrina da concupiscência foi considerada “maniqueizante”
Juliano sustentava que Agostinho atribuía ao desejo sexual uma corrupção intrínseca, posição que lembraria o maniqueísmo.
Segundo Juliano:
O casamento é bom; a geração humana é boa; portanto, não se pode atribuir ao ato conjugal um mal inerente.
Fontes
- Agostinho, Contra Julianum, Livro II.
- Agostinho, De Nuptiis et Concupiscentia.
- Gerald Bonner, St. Augustine of Hippo.
- Peter Brown, Augustine of Hippo.
3. Alguns estudiosos enxergam permanências do pensamento maniqueu
Diversos historiadores modernos observam que certos temas desenvolvidos por Agostinho guardam semelhanças estruturais com categorias aprendidas durante seus anos entre os maniqueus.
Entre eles:
- Adolf von Harnack.
- Hans von Campenhausen.
- Elaine Pagels.
- Ken Wilson
Esses autores não afirmam que Agostinho permaneceu maniqueu, mas argumentam que sua formação anterior deixou marcas profundas em sua forma de pensar.
Fontes
- Adolf von Harnack, History of Dogma, vol. V.
- Hans von Campenhausen, The Fathers of the Latin Church.
- Elaine Pagels, Adam, Eve and the Serpent.
4. Predestinação e possíveis ecos do determinismo maniqueu
Alguns estudiosos observaram paralelos entre o determinismo do maniqueísmo e aspectos da doutrina agostiniana da graça e da predestinação.
Entre eles:
- Reinhold Seeberg.
- Adolf von Harnack.
Esses autores sugerem que a ênfase tardia de Agostinho na graça irresistível e na eleição incondicional apresenta afinidades formais com seu antigo ambiente intelectual, embora reconheçam que o conteúdo teológico seja um pouco distinto.
Fontes
- Reinhold Seeberg, Textbook of the History of Doctrines.
- Adolf von Harnack, History of Dogma, vol. V.
5. Peter Brown: influência maniqueísta
Na biografia clássica de Agostinho, Peter Brown reconhece que o passado maniqueu de Agostinho influenciou profundamente a maneira como ele formulava muitos problemas teológicos.
Brown escreve que:
“The Manichee years had left Augustine with habits of mind that never entirely disappeared.”
(“Os anos maniqueus deixaram em Agostinho hábitos de pensamento que jamais desapareceram completamente.”)
Brown, entretanto, afirma que Agostinho reinterpretou essas categorias dentro da fé cristã.
Fonte
- Augustine of Hippo: A Biography, edição revisada (University of California Press, 2000), especialmente os capítulos 6–9.
Conclusão
As fontes primárias demonstram que houve acusações explícitas de influência maniqueia, sobretudo por parte de Juliano de Eclano, durante a controvérsia pelagiana (Contra Julianum e Opus Imperfectum Contra Julianum). Já as fontes acadêmicas modernas (Peter Brown, Gerald Bonner, Adolf von Harnack, Hans von Campenhausen, Elaine Pagels e Ken Wilson) reconhecem que a formação maniqueia marcou profundamente Agostinho, embora haja divergência entre elas quanto ao alcance dessa influência.
