Segue uma versão ampliada, com referências patrísticas primárias para cada autor. Convém observar que alguns Pais empregam mais de uma interpretação em diferentes obras; abaixo estão textos nos quais a ênfase recai sobre Cristo ou sobre a confissão de fé em Cristo como a “pedra”.
Pais da Igreja que interpretaram Mateus 16.18 tendo Cristo (ou a confissão de fé em Cristo) como a Pedra
A interpretação de Mateus 16.18 não foi uniforme entre os Pais da Igreja. Embora alguns escritores antigos tenham entendido que Pedro possui um papel singular na fundação visível da Igreja, muitos outros identificaram a “pedra” como sendo o próprio Cristo ou a confissão de fé feita por Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). A seguir, destacam-se alguns dos principais testemunhos patrísticos.
1. Orígenes (c. 185–253)
Em seu Comentário sobre Mateus, Orígenes ensina que Pedro não é o único “pedra”. Todo aquele que faz a mesma confissão de fé torna-se uma pedra espiritual porque Cristo é a verdadeira Pedra.
Fonte primária:
- Orígenes, Commentarium in Matthaeum (Comentário sobre Mateus), Livro XII, capítulos 10–11 (PG 13).
2. Eusébio de Cesareia (c. 260–339)
Eusébio afirma que Cristo é o fundamento da Igreja, em conformidade com 1 Coríntios 3.11. Para ele, a Igreja permanece firme porque está edificada sobre Cristo.
Fonte primária:
- Eusébio de Cesareia, Demonstratio Evangelica (Demonstração Evangélica), Livro III, cap. 7 (PG 22).
3. Hilário de Poitiers (c. 315–367)
Hilário ensina que a Igreja foi edificada sobre a fé confessada por Pedro. O fundamento é a verdade proclamada por ele: que Jesus é o Filho de Deus.
Fonte primária:
- Hilário de Poitiers, De Trinitate, Livro VI, §§36–37 (PL 10).
4. Gregório de Nissa (c. 335–395)
Gregório apresenta Cristo como a Rocha sobre a qual repousa a esperança da salvação e da Igreja, em harmonia com a tradição paulina.
Fonte primária:
- Gregório de Nissa, Contra Eunômio (Contra Eunomium), Livro II (PG 45).
5. João Crisóstomo (c. 349–407)
Em sua Homilia sobre Mateus, Crisóstomo afirma que Cristo edificou sua Igreja sobre a fé da confissão de Pedro. A ênfase não está na pessoa de Pedro, mas na verdade por ele proclamada.
Fonte primária:
- João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus, Homilia 54 sobre Mateus 16 (PG 58).
6. Agostinho de Hipona (354–430)
Agostinho interpretou Mateus 16.18 de maneiras diferentes ao longo da vida. Em suas obras posteriores, porém, afirmou preferir a interpretação segundo a qual Cristo é a Pedra, e Pedro recebeu seu nome da Pedra (Cristo), e não Cristo de Pedro.
Ele escreve:
“Disse em certo lugar acerca do apóstolo Pedro que a Igreja foi edificada sobre ele… Mas sei que posteriormente expliquei muitas vezes que deve ser entendido que a Igreja foi edificada sobre aquele de quem Pedro disse: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’… Pois não foi Cristo chamado por causa de Pedro, mas Pedro por causa de Cristo.”
Fontes primárias:
- Agostinho, Retratações (Retractationes), Livro I, cap. 21.
- Agostinho, Sermão 76.
- Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de João (In Johannis Evangelium Tractatus), Tratado 124.
7. Cirilo de Alexandria (c. 376–444)
Cirilo ensina que a Igreja está firmada sobre a fé apostólica que reconhece Jesus como o Filho de Deus, tendo Cristo como fundamento.
Fonte primária:
- Cirilo de Alexandria, Comentário sobre Isaías (referências à confissão apostólica).
- Cirilo de Alexandria, Glaphyra sobre o Pentateuco (PG 69).
8. Teodoreto de Ciro (c. 393–458)
Teodoreto relaciona a “pedra” à fé apostólica confessada por Pedro, cuja centralidade é Cristo.
Fonte primária:
- Teodoreto de Ciro, Interpretação das Epístolas de Paulo, comentário sobre 1 Coríntios 3.11 (PG 82).
Conclusão
O testemunho patrístico demonstra que a interpretação de Mateus 16.18 foi plural nos primeiros séculos do cristianismo. Um número significativo de Pais da Igreja compreendeu que a “pedra” mencionada por Jesus é o próprio Cristo ou a confissão de fé em sua divindade, e não exclusivamente a pessoa de Pedro. Essa leitura encontra apoio não apenas em Mateus 16, mas também em passagens como 1 Coríntios 3.11, Efésios 2.20 e 1 Pedro 2.4–8, nas quais Cristo é explicitamente apresentado como o fundamento e a pedra angular da Igreja.
Se desejar, posso preparar uma versão acadêmica, com notas de rodapé completas, referências em ABNT ou Chicago, incluindo os textos originais em latim e grego.
Textos do Novo Testamento em que Pedro apresenta Jesus como a Pedra
Um dos argumentos mais relevantes na interpretação de Mateus 16.18 é observar como o próprio apóstolo Pedro fala de Cristo após a ressurreição. Em nenhum momento Pedro afirma ser ele mesmo o fundamento da Igreja. Pelo contrário, em suas pregações e escritos ele identifica repetidamente Jesus Cristo como a Pedra, o fundamento da fé e da salvação.
1. Atos 4.10–12 – Jesus é a Pedra rejeitada pelos construtores
Diante do Sinédrio, Pedro declara:
“Seja conhecido de vós todos e de todo o povo de Israel que, em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro…” (At 4.10–12)
Pedro aplica diretamente a Jesus o Salmo 118.22, identificando-o como a pedra angular da obra de Deus.
2. 1 Pedro 2.4 – Cristo é a Pedra Viva
Escrevendo às igrejas da Ásia Menor, Pedro afirma:
“Chegando-vos para ele, a pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa.” (1Pe 2.4)
A “Pedra Viva” é claramente Jesus Cristo.
3. 1 Pedro 2.5 – Os cristãos são pedras vivas
Logo em seguida, Pedro declara:
“Também vós mesmos, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual…” (1Pe 2.5)
Se todos os crentes são pedras vivas, Pedro não reivindica para si exclusividade como “a pedra”. Todos participam da edificação porque estão unidos à Pedra principal, Cristo.
4. 1 Pedro 2.6 – Cristo é a Pedra Angular
Pedro cita Isaías 28.16:
“Pois isto está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido.” (1Pe 2.6)
Pedro identifica expressamente essa profecia com Jesus.
5. 1 Pedro 2.7 – Cristo é a Pedra rejeitada
Pedro continua citando o Salmos:
“A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular.” (1Pe 2.7)
Mais uma vez, a pedra é Jesus Cristo.
6. 1 Pedro 2.8 – Cristo é Pedra de tropeço
Pedro cita Isaías 8.14:
“Pedra de tropeço e rocha de escândalo são aqueles que tropeçam na palavra…” (1Pe 2.8)
O contexto deixa claro que essa pedra é Cristo.
A harmonia com o ensino apostólico
O ensino de Pedro está em perfeita consonância com o restante do Novo Testamento.
- 1 Coríntios 3.11:
“Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo.”
- 1 Coríntios 10.4:
“…e a pedra era Cristo.”
- Efésios 2.20:
“…edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular.”
- Romanos 9.32–33:
“Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo…”
Conclusão
O próprio Pedro jamais reivindica para si o título de fundamento absoluto da Igreja. Ao contrário, tanto em suas pregações registradas em Atos quanto em sua primeira epístola, ele identifica repetidamente Jesus Cristo como a Pedra Viva, a Pedra Angular, a Pedra rejeitada pelos construtores e a Rocha da salvação. Além disso, Pedro ensina que todos os crentes são “pedras vivas” edificadas sobre Cristo (1Pe 2.5). Assim, seu testemunho confirma o ensino de todo o Novo Testamento: o fundamento último da Igreja é Jesus Cristo, e os apóstolos exercem seu ministério como testemunhas desse único fundamento.
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