
A questão central é simples: Cristo morreu apenas pelos eleitos ou por toda a humanidade?
A posição da expiação ilimitada sustenta que Jesus morreu por todos os homens, tornando a salvação disponível a todos, embora somente os crentes recebam seus benefícios. Essa foi a compreensão predominante dos escritores cristãos dos primeiros séculos.
I. A BÍBLIA ENSINA QUE CRISTO MORREU PELO MUNDO
João 1:29
“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”
Não diz “dos eleitos”, mas do mundo.
João 3:16
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito…”
O objeto do amor redentor de Deus é o mundo.
João 3:17
“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.”
João 4:42
“Este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.”
João 6:51
“O pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne.”
João 12:32
“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.”
2 Coríntios 5:14-15
“Um morreu por todos.”
“E ele morreu por todos…”
2 Coríntios 5:19
“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.”
1 Timóteo 2:4-6
“O qual deseja que todos os homens sejam salvos.”
“O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.”
Hebreus 2:9
“Para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos.”
1 João 2:2
“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.”
Este é um dos textos mais fortes contra a expiação limitada.
1 João 4:14
“O Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo.”
2 Pedro 2:1
“Negando até o Senhor que os resgatou.”
Os falsos mestres se perdem, mas foram comprados pelo Senhor.
1 Coríntios 8:11
“Perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu.”
Romanos 5:18
“Assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens.”
Tito 2:11
“A graça de Deus se manifestou trazendo salvação a todos os homens.”
1 Timóteo 4:10
“O Deus vivo, Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis.”
II. OS PAIS DA IGREJA E A EXPIAÇÃO UNIVERSAL
1. JUSTINO MÁRTIR (100–165)
Justino Mártir
Citação
“O Pai de todos quis que o seu Cristo tomasse sobre si as maldições de toda a raça humana.”
Fonte
Diálogo com Trifão, cap. 95.
Referência:
Justin Martyr, Dialogue with Trypho, Chapter 95, em Ante-Nicene Fathers, vol. 1, editado por Alexander Roberts e James Donaldson (Peabody: Hendrickson Publishers).
Comentário
Justino não restringe a obra de Cristo a um grupo específico, mas fala de “toda a raça humana”.
2. IRINEU DE LIÃO (130–202)
Irineu de Lião
Citação
“Ele veio salvar todos por meio de si mesmo; todos, digo eu, que por meio dele renascem para Deus.”
Fonte
Contra as Heresias
Livro II, capítulo 22, seção 4.
Referência:
Irenaeus, Against Heresies II.22.4.
Comentário
Irineu apresenta Cristo como o Salvador de toda a humanidade.
3. CLEMENTE DE ALEXANDRIA (150–215)
Clemente de Alexandria
Citação
“Ele é o Salvador; não de alguns e de outros não. Mas derramou sua bondade sobre todos indistintamente.”
Fonte
O Pedagogo
Livro I, capítulo 8.
Referência:
Clement of Alexandria, Paedagogus I.8.
Comentário
A linguagem é explicitamente universal.
4. ORÍGENES (185–253)
Orígenes
Citação
“Cristo morreu por todos os homens e ofereceu-se por todos.”
Fonte
Comentário sobre Romanos
Livro V.
Referência:
Origen, Commentary on Romans, Book V.
5. ATANÁSIO DE ALEXANDRIA (296–373)
Atanásio de Alexandria
Citação
“Ele entregou seu corpo à morte em lugar de todos, e ofereceu-o ao Pai.”
Fonte
Sobre a Encarnação
Capítulo 9.
Referência:
Athanasius, On the Incarnation, Chapter 9.
Comentário
A expressão “em lugar de todos” é incompatível com uma limitação prévia aos eleitos.
6. CIRILO DE JERUSALÉM (313–386)
Cirilo de Jerusalém
Citação
“Cristo sofreu por todos os homens.”
Fonte
Catequeses
13.2.
Referência:
Cyril of Jerusalem, Catechetical Lectures XIII.2.
7. BASÍLIO MAGNO (330–379)
Basílio Magno
Citação
“O Senhor entregou sua vida pela salvação de todos.”
Fonte
Homilia sobre o Salmo 48
Referência:
Basil of Caesarea, Homily on Psalm 48.
8. GREGÓRIO DE NISSA (335–395)
Gregório de Nissa
Citação
“Aquele que se entregou em resgate pela nossa morte tornou-se resgate por toda a raça humana.”
Fonte
Grande Catequese
Capítulo 32.
Referência:
Gregory of Nyssa, The Great Catechism, Chapter 32.
9. JOÃO CRISÓSTOMO (347–407)
João Crisóstomo
Comentando 1 Timóteo 2:4
Citação
“Se Ele quer que todos sejam salvos, é evidente que morreu por todos.”
Fonte
Homilias sobre 1 Timóteo
Homilia 7.
Referência:
John Chrysostom, Homily VII on First Timothy.
10. AMBRÓSIO DE MILÃO (340–397)
Ambrósio de Milão
Citação
“Cristo sofreu por todos.”
Fonte
Exposição do Evangelho de Lucas
Livro VII.
Referência:
Ambrose, Exposition of the Gospel of Luke, Book VII.
11. AGOSTINHO DE HIPONA (354–430)
Agostinho de Hipona
Mesmo Agostinho, frequentemente reivindicado pelos calvinistas, escreveu:
Citação
“O sangue de Cristo foi derramado para a remissão dos pecados do mundo inteiro.”
Fonte
Exposição dos Salmos
Salmo 95.
Referência:
Augustine, Expositions on the Psalms, Psalm 95.
Outra declaração:
“O Redentor veio e deu o seu preço por todo o mundo.”
Fonte
Sermão 96
Referência:
Augustine, Sermon 96.
III. O TESTEMUNHO DOS HISTORIADORES
J. N. D. Kelly
J. N. D. Kelly
Citação
“Os Padres pré-agostinianos ensinavam unanimemente que Cristo morreu pela raça humana.”
Fonte
Early Christian Doctrines (5ª edição), p. 376.
H. N. Oxenham
Henry Nutcombe Oxenham
Citação
“Nenhum Pai da Igreja ensinou uma doutrina equivalente à expiação limitada.”
Fonte
The Catholic Doctrine of the Atonement, p. 112.
Conclusão
A evidência bíblica é abundante:
- Cristo morreu por todos (2Co 5:14-15).
- Provou a morte por todos (Hb 2:9).
- É a propiciação pelos pecados do mundo inteiro (1Jo 2:2).
- Deus deseja a salvação de todos (1Tm 2:4).
- É o Salvador do mundo (Jo 4:42; 1Jo 4:14).
Além disso, os principais escritores cristãos dos primeiros quatro séculos — Justino, Irineu, Clemente, Orígenes, Atanásio, Cirilo, Basílio, Gregório de Nissa, Crisóstomo, Ambrósio e até mesmo Agostinho — empregam linguagem universal ao descrever o alcance da morte de Cristo.
Historicamente, a ideia de que Cristo morreu exclusivamente pelos eleitos não foi a compreensão predominante da Igreja dos primeiros séculos, mas uma formulação teológica que surgiu muito mais tarde no desenvolvimento da tradição agostiniana e, bem posteriormente, do calvinismo.