Entre a incapacidade total e a exigência diária de santidade
O debate entre monergismo e sinergismo não é apenas uma questão abstrata de soteriologia. Ele possui implicações práticas profundas na maneira como o evangelho é pregado, na forma como a responsabilidade humana é compreendida e até na coerência interna da vida cristã.
O calvinismo monergista afirma que o homem está “morto em delitos e pecados” (Ef 2:1) e, por isso, este homem é incapaz de responder positivamente ao evangelho sem uma ação irresistível da graça divina que lhe dê a fé e, com essa fé, ele possa crer. Na mente calvinista primeiro Deus regenera e depois a pessoa crê. Segundo essa leitura, o homem natural não pode exercer fé, não pode escolher crer e não pode sequer cooperar minimamente com o chamado salvador de Deus.
Entretanto, surge aqui um paradoxo frequentemente ignorado: os mesmos pregadores que insistem na incapacidade total do homem dirigem constantemente sermões inflamados convocando pessoas a mudarem de comportamento, abandonarem pecados, serem disciplinadas, orarem mais, vigiarem suas vidas, fugirem das festas mundanas, controlarem o uso das redes sociais, lerem mais a Bíblia e buscarem santidade.
A questão hermenêutica inevitável é: se o homem é absolutamente incapaz de responder a Deus por estar “morto”, como pode ser exortado a agir espiritualmente?
Em muitos púlpitos calvinistas, o discurso é claramente imperativo. Não se diz apenas “ore para que Deus o transforme”; diz-se: “abandone o pecado”, “vigie”, “mude sua mente”, “discipline-se”, “consagre-se”. Tais exortações pressupõem, inevitavelmente, algum nível de capacidade de resposta humana.
O próprio ambiente reformado frequentemente enfatiza isso. Em um artigo publicado no site sobre Monergismo, afirma-se que o cristão deve manifestar externamente santidade, obediência, oração e transformação de vida. (https://www.monergismo.com/textos/santificacao/santificacao_mac.htm).
Outro sermão sobre santidade afirma que ser santo exige sensibilidade espiritual, ouvidos atentos, coração rendido, e um desejo sincero de agradar ao Pai e, citando Provérbios, diz que o homem deve dar seu coração a Deus: “Filho meu, dá-me o teu coração” (Provérbios 23:26) (vem em: (https://www.monergismo.com/textos/santificacao/santidade_beeke.htm).
Ora, como assim? Pode o homem dar algo a Deus se formos seguir o que eles mesmo ensinam? Para ser santo o homem pode oferecer seu coração? Aí vão dizer que sim, porque já é crente. Se assim for, e se não oferecerem o coração para serem santos? Começa a grande confusã.
Da mesma forma, um artigo sobre oração baseado em João Calvino declara que a oração exige disciplina e dedicação do crente. Ver em (https://coalizaopeloevangelho.org/article/as-4-regras-de-oracaeo-de-joaeo-calvino/?utm).
Essas exortações demonstram algo inevitável: o discurso pastoral calvinista cotidiano trata o homem como alguém capaz de responder às admoestações divinas. Caso contrário, toda exortação prática seria vazia de sentido.
Se a incapacidade espiritual fosse absoluta no sentido defendido pelo monergismo rigoroso, a coerência exigiria outro tipo de sermão. O pregador não deveria dizer: “arrependa-se”, “abandone o pecado”, “ore mais”, “seja santo”. Deveria apenas afirmar: “esperemos que Deus faça tudo unilateralmente” ou “vamos orar para Deus intervir e nos santificar”. Qualquer convocação prática ao esforço espiritual já pressupõe algum tipo de participação humana.
O problema se intensifica quando observamos a própria lógica usada acerca da “morte espiritual”. O monergismo frequentemente interpreta a expressão paulina “mortos em delitos e pecados” de maneira absoluta, quase ontológica, como incapacidade total de responder a Deus. Contudo, essa interpretação produz outra dificuldade séria.
Se o homem estava “morto” e, por isso, incapaz de crer, então, ao ser regenerado, deveria deixar completamente essa condição. Porém, o próprio calvinismo reconhece que o convertido continua pecando, lutando contra a carne e enfrentando quedas espirituais. Porém, se, no argumento de “estar morto”, o pecado era precisamente a prova dessa “morte espiritual”, então surge uma pergunta inevitável: quando o crente continua pecando após a conversão, ele “morre novamente”?
A lógica absolutista aplicada à incapacidade da fé desaparece completamente quando o assunto é santificação prática. O pecado, que antes era usado como prova de incapacidade absoluta, passa então a coexistir com responsabilidade, luta espiritual e crescimento gradual.
Percebe-se, assim, uma seletividade hermenêutica: o homem é tratado como absolutamente incapaz apenas no momento da fé salvadora; depois disso, torna-se suficientemente capaz para obedecer, vigiar, resistir ao pecado, perseverar, orar e buscar santidade. Monergismo para ser salvo, sinergismo no resto!! Que grande incongruência. Um dos dois está errado.
Essa tensão revela que o conceito paulino de “morte espiritual” talvez esteja sendo utilizado além da intenção do próprio texto bíblico. Nas Escrituras, “morte” frequentemente aponta para separação, corrupção e escravidão do pecado — não necessariamente para inexistência absoluta de qualquer capacidade de resposta ao chamado divino.
O filho pródigo, por exemplo, é descrito pelo pai como alguém que “estava morto e reviveu” (Lc 15:24). Contudo, mesmo em sua condição de afastamento, ele “caiu em si”, reconheceu sua miséria e decidiu voltar ao pai. O texto não descreve um cadáver espiritual incapaz de qualquer resposta, mas um homem corrompido que ainda podia ouvir o chamado da graça.
Da mesma forma, Estevão acusa seus ouvintes de “resistirem ao Espírito Santo” (At 7:51). Tal linguagem perde sentido se não houver verdadeira possibilidade de resposta humana diante da ação divina. Resistir pressupõe interação real com a graça.
O mesmo ocorre nas constantes convocações bíblicas: “arrependei-vos”, “convertei-vos”, “escolhei hoje”, “vigiai”, “permanecei”, “não endureçais o vosso coração”. Todos esses imperativos pressupõem responsabilidade humana genuína, pressupõe alguma iniciativa humana.
A graça divina, portanto, não precisa ser entendida como destruidora da participação humana, mas como aquilo que desperta, ilumina e capacita o homem a responder ao chamado de Deus. A iniciativa continua sendo divina; porém, a resposta humana continua sendo real.
O grande paradoxo do monergismo prático é justamente este: teoricamente nega ao homem qualquer possibilidade de responder ao evangelho, mas pastoralmente vive tratando esse mesmo homem como responsável por responder diariamente às exigências espirituais do Reino de Deus.
No fim, os próprios púlpitos reformados frequentemente demonstram, ainda que involuntariamente, que o ser humano não é uma pedra espiritual incapaz de responder, mas uma criatura caída que continua sendo chamada, confrontada, persuadida e responsabilizada diante da voz de Deus.









