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Home Destaques

O pré-tribulacionismo e os pais primitivos da Igreja

Pr. João Flávio Martinez por Pr. João Flávio Martinez
14 de agosto de 2026
em Destaques, Escatologia, Estudos Bíblicos, Video
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É comum ouvirmos que o ensino do arrebatamento anterior à Grande Tribulação não existia antes do século XIX e que teria sido inventado por John Nelson Darby. Essa afirmação, porém, precisa ser examinada com maior cuidado histórico.

É verdade que não encontramos, nos cinco primeiros séculos, o sistema pré-tribulacionista completamente desenvolvido como atualmente — com a distinção detalhada entre o arrebatamento da Igreja, a Grande Tribulação e a manifestação pública de Cristo. Entretanto, também não é correto dizer que todas as ideias relacionadas ao pré-tribulacionismo eram absolutamente desconhecidas pelos cristãos antigos.

Nos escritos patrísticos encontramos a expectativa da volta iminente de Cristo, a trasladação dos justos, o livramento da Igreja, a possibilidade de escapar da tribulação e a retirada dos santos antes de determinados juízos divinos. Esses testemunhos precisam ser analisados em seu contexto, sem forçar os textos antigos a dizerem mais do que realmente dizem.

1. O Pastor de Hermas — aproximadamente 100–150 d.C.

Embora O Pastor de Hermas seja uma obra anônima e seu autor não seja propriamente um Pai da Igreja, o documento pertence ao período dos Pais Apostólicos e foi muito respeitado entre os primeiros cristãos.

Na quarta visão, Hermas contempla uma fera gigantesca, símbolo de uma grande tribulação futura. Depois de atravessar aquela experiência sem ser destruído, recebe a seguinte explicação:

“Escapaste de uma grande tribulação por causa da tua fé […] esta fera é uma figura da grande tribulação que está para vir. Se vos preparardes […] será possível escapar dela.”

A passagem apresenta três elementos importantes: uma Grande Tribulação futura, a possibilidade de os eleitos escaparem dela e a necessidade de fé, arrependimento e preparação espiritual.

Entretanto, o texto não explica que esse livramento acontecerá mediante um arrebatamento ao céu. Na visão, Hermas enfrenta a ameaça e é preservado. Portanto, temos uma antecipação da ideia de livramento da Grande Tribulação, mas não uma exposição inequívoca do arrebatamento pré-tribulacional.

Fonte: O Pastor de Hermas, Visão IV, 2–3.

2. Irineu de Lião — aproximadamente 180 d.C.

Irineu de Lião foi discípulo de Policarpo de Esmirna, que, por sua vez, tivera contato com o apóstolo João. Em sua obra Contra as Heresias, Irineu escreveu:

“Quando, no fim, a Igreja for subitamente arrebatada disso, então haverá tribulação como nunca houve desde o princípio.”

Essa é uma das passagens patrísticas mais utilizadas em defesa de uma expectativa pré-tribulacional. A sequência aparentemente apresentada por Irineu seria:

  1. a Igreja é subitamente arrebatada;
  2. em seguida acontece uma tribulação sem precedentes.

Irineu também apresenta Enoque e Elias como figuras antecipadas da trasladação dos justos:

“Enoque […] foi trasladado no mesmo corpo […] apontando antecipadamente para a trasladação dos justos. Elias também foi arrebatado […] demonstrando profeticamente o arrebatamento dos espirituais.”

Essas declarações demonstram que Irineu acreditava em uma futura trasladação corporal dos justos. Entretanto, precisamos reconhecer que, em outras passagens, ele menciona pessoas que sofreriam a perseguição do Anticristo e escapariam das mãos do maligno.

Por essa razão, não podemos simplesmente classificar Irineu como pré-tribulacionista no sentido moderno. Todavia, sua declaração sobre a Igreja ser “subitamente arrebatada” antes de uma tribulação sem precedentes mostra que ideias posteriormente associadas ao pré-tribulacionismo já estavam presentes no século II.

Fonte: Irineu, Contra as Heresias, livro V, capítulos 5, 29 e 35.

3. Cipriano de Cartago — aproximadamente 250–258 d.C.

Cipriano acreditava que o fim estava próximo e orava para que os cristãos fossem libertados das calamidades iminentes. Ele escreveu sobre os justos serem “mais cedo retirados daqui” e “mais rapidamente libertados”, antes que fossem contaminados pelos males do mundo:

“Aqueles que agradam a Deus são mais cedo retirados daqui e mais rapidamente libertados.”

Essa declaração é algumas vezes apresentada como evidência de uma expectativa pré-tribulacional. Entretanto, o contexto do Tratado sobre a Mortalidade trata principalmente da morte dos cristãos durante epidemias e perseguições.

Para Cipriano, ser “retirado” significava, nesse contexto, deixar este mundo por meio da morte e entrar na presença de Cristo. Em outra obra, ele afirma que, em meio às tribulações, o cristão poderia ser “subitamente retirado da terra” e colocado no Reino celestial. Novamente, o contexto imediato é o martírio.

Portanto, Cipriano ensinou que Deus poderia retirar seus servos antes de calamidades maiores, mas não apresentou claramente um arrebatamento coletivo dos cristãos vivos antes da Grande Tribulação.

Fonte: Cipriano, Tratado VII — Sobre a Mortalidade, capítulo 23; Exortação ao Martírio, Tratado XI.

4. Vitorino de Pettau — aproximadamente 260–303 d.C.

Vitorino de Pettau produziu o mais antigo comentário latino preservado sobre o livro do Apocalipse. Comentando Apocalipse 6.14 — “o céu recolheu-se como um livro que se enrola” — declarou:

“O céu ser enrolado significa que a Igreja será retirada.”

Vitorino situa essa retirada no contexto do sexto selo e da “última perseguição”. Depois acrescenta que os bons seriam removidos, procurando escapar da perseguição.

Comentando as sete últimas pragas de Apocalipse 15, ele afirma:

“Essas coisas acontecerão no último tempo, quando a Igreja tiver saído do meio.”

Essas declarações são muito significativas. Vitorino fala da Igreja sendo “retirada” e “saindo do meio” antes da consumação dos últimos flagelos da ira divina.

Por outro lado, ele também apresenta a Igreja sofrendo durante a última perseguição. Isso indica que sua posição talvez estivesse mais próxima daquilo que atualmente se chama de arrebatamento pré-ira: a Igreja enfrenta a perseguição do Anticristo, mas é retirada antes da manifestação final da ira de Deus.

Vitorino não apresenta todo o sistema pré-tribulacionista moderno, mas seu comentário demonstra claramente que, no século III, um intérprete cristão podia compreender o Apocalipse como ensinando a retirada da Igreja antes das últimas pragas.

Fonte: Vitorino, Comentário sobre o Apocalipse, comentários sobre Apocalipse 6 e 15.

5. Efraim, o Sírio — aproximadamente 306–373 d.C.

Efraim, o Sírio, ensinou intensamente sobre a volta de Cristo, o Anticristo, o julgamento e a necessidade de vigilância. Entretanto, não existe, nos escritos reconhecidamente autênticos de Efraim, uma afirmação inequívoca de que toda a Igreja será arrebatada antes da Grande Tribulação.

Frequentemente é atribuída a Efraim a seguinte declaração:

“Todos os santos e eleitos de Deus serão reunidos antes da tribulação que está para vir e serão levados ao Senhor, para que não vejam a confusão que dominará o mundo por causa dos nossos pecados.”

Se essa declaração fosse autenticamente de Efraim, seria um dos testemunhos antigos mais claros em favor do arrebatamento pré-tribulacional. O problema é que ela aparece em uma obra anônima conhecida como Pseudo-Efraim, intitulada Sobre os Últimos Tempos, o Anticristo e o Fim do Mundo.

A datação dessa obra é discutida. Algumas propostas antigas a situavam no século IV, mas estudos posteriores geralmente colocam sua forma latina entre os séculos VI e VII. Além disso, existem diferenças importantes entre suas versões latina e siríaca.

A versão latina parece afirmar que os eleitos serão reunidos ao Senhor antes da tribulação. A versão siríaca, porém, pode ser interpretada como uma referência aos santos que escapariam das calamidades por meio da morte.

Consequentemente, não é historicamente seguro atribuir essa declaração diretamente a Efraim, o Sírio, nem utilizá-la sem mencionar a discussão sobre sua autoria e datação.

O que os Pais da Igreja realmente demonstram?

A pesquisa patrística não permite afirmar que o sistema pré-tribulacionista atual estava completamente formulado nos cinco primeiros séculos. Os antigos autores não empregavam as categorias escatológicas desenvolvidas nos debates modernos.

Contudo, seus escritos revelam conceitos importantes:

  • a expectativa da volta iminente de Cristo;
  • a futura trasladação corporal dos justos;
  • a possibilidade de os eleitos escaparem da Grande Tribulação;
  • a retirada da Igreja antes de determinados juízos;
  • a distinção entre a perseguição promovida pelo Anticristo e a ira derramada por Deus;
  • a esperança de que os santos fossem preservados das calamidades finais.

Portanto, existe uma diferença considerável entre afirmar que “o sistema pré-tribulacionista ainda não estava plenamente desenvolvido” e declarar que “ninguém antes de Darby jamais pensou em um arrebatamento anterior à tribulação”.

A primeira afirmação é historicamente defensável. A segunda é excessivamente absoluta e não considera adequadamente textos como os de Irineu, Vitorino e Pseudo-Efraim.

A Igreja e a ira vindoura

A esperança pré-tribulacional não depende exclusivamente dos Pais da Igreja, mas principalmente do ensino das Escrituras. Paulo afirma que os cristãos aguardam dos céus o Filho de Deus:

“Jesus, que nos livra da ira futura” (1 Tessalonicenses 1.10).

Ele também declara:

“Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5.9).

Em Apocalipse 3.10, Jesus promete:

“Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra.”

A Igreja pode sofrer perseguições promovidas pelos homens, pelos governos e pelo Anticristo. Todavia, isso não significa que ela esteja destinada a sofrer a ira judicial de Deus. Não existe condenação para os que estão em Cristo Jesus (Romanos 8.1).

Conclusão

Não devemos cometer dois erros opostos. O primeiro seria transportar todo o sistema pré-tribulacionista moderno para os escritos dos Pais da Igreja, como se eles tivessem utilizado exatamente nossas categorias e terminologias. O segundo seria ignorar qualquer declaração antiga compatível com a retirada da Igreja antes da tribulação ou dos juízos finais.

O Pastor de Hermas fala da possibilidade de escapar da Grande Tribulação. Irineu menciona a Igreja sendo “subitamente arrebatada” e apresenta Enoque e Elias como antecipações da trasladação dos justos. Vitorino declara que a Igreja será retirada e terá “saído do meio” antes das últimas pragas. Pseudo-Efraim contém uma declaração explícita sobre os eleitos serem reunidos ao Senhor antes da tribulação, embora sua datação e autoria permaneçam discutidas.

Assim, o pré-tribulacionismo, enquanto sistema detalhadamente organizado, foi desenvolvido posteriormente. Entretanto, os elementos que o compõem não surgiram todos repentinamente no século XIX. Existem antecedentes e aproximações na literatura cristã antiga.

Acima de qualquer disputa cronológica, permanece a bendita esperança da Igreja: Jesus voltará para buscar o seu povo. Por isso, devemos viver em santidade, vigilância e fidelidade, consolando uns aos outros com a promessa apostólica:

“Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (1 Tessalonicenses 4.17–18).

Maranata! Ora vem, Senhor Jesus!

 

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