Não. À luz da Bíblia — e conforme argumentado nos arquivos anexados — atos autocausados (ações genuinamente oriundas da vontade humana) não apenas não são impossíveis, como são pressupostos constantes do ensino bíblico. A ideia de que todo ato humano é causalmente determinado por um decreto divino prévio não decorre do texto bíblico, mas de um determinismo teológico-filosófico posterior.
1. O que se entende por “atos autocausados”
Nos debates apresentados nos materiais anexos, “atos autocausados” significam decisões morais reais, nas quais:
- o agente humano age voluntariamente;
- a causa imediata do ato é a vontade do próprio agente, não um decreto irresistível;
- Deus permite, conhece e julga tais atos, mas não os produz causalmente.
Essa definição é fundamental para distinguir responsabilidade moral de fatalismo.
2. A Bíblia pressupõe atos autocausados
Os livros analisados demonstram que a Escritura não trata o homem como um autômato, mas como um agente responsável, o que só é coerente se atos autocausados forem possíveis.
a) Chamados, exortações e advertências
A Bíblia ordena, exorta e adverte de forma real:
- “Escolhei hoje a quem servais” (Js 24.15)
- “Por que morreríeis?” (Ez 18.31)
- “Quantas vezes quis eu… e vós não quisestes” (Mt 23.37)
Essas passagens perdem sentido sob um modelo em que nenhuma decisão é genuinamente do homem.
Roger Olson demonstra que o determinismo exaustivo torna essas passagens meramente retóricas, o que não é compatível com a intenção bíblica .
b) Responsabilidade moral real
A Escritura afirma repetidamente que o homem é culpável por suas próprias ações:
- “Cada um será julgado segundo as suas obras”
- “Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta” (Tg 1.13)
Se o ato fosse causado irresistivelmente por Deus, a culpa moral seria deslocada.
Norman Geisler e Thomas Howe destacam que a Bíblia jamais atribui a Deus a autoria causal do pecado, mas sim ao agente humano .
3. O problema do determinismo calvinista
Os arquivos anexados são unânimes em mostrar que a negação dos atos autocausados surge da tentativa de sustentar:
- decretos divinos exaustivos,
- causalidade unilateral absoluta,
- monergismo aplicado a todos os atos humanos.
a) Hutson Smelley
Em Desconstruindo o Calvinismo, Smelley argumenta que não existe um único texto bíblico que exija a conclusão de que todo ato humano é decretado causalmente por Deus. Tal leitura é imposta ao texto, não extraída dele .
b) Laurence Vance
Vance demonstra que o calvinismo histórico frequentemente desliza para um fatalismo funcional, onde:
- escolhas são aparentes;
- responsabilidade é mantida apenas verbalmente;
- mas causalidade real pertence exclusivamente a Deus.
Isso, segundo ele, contradiz frontalmente o padrão bíblico de agência humana .
c) Dave Hunt
Dave Hunt afirma que negar atos autocausados implica afirmar, ainda que indiretamente, que:
- Deus é a causa última do mal,
- o pecado ocorre por decreto positivo,
o que desfigura o caráter santo e justo de Deus apresentado nas Escrituras .
4. Síntese bíblica e teológica
À luz dos arquivos analisados, a conclusão é clara:
- ✔ A Bíblia afirma a soberania de Deus
- ✔ A Bíblia afirma a presciência divina
- ✔ A Bíblia afirma a responsabilidade humana
- ✖ A Bíblia não ensina determinismo causal absoluto
- ✖ A Bíblia não nega atos autocausados
Pelo contrário, a possibilidade de atos autocausados é uma condição necessária para:
- o juízo justo,
- o chamado ao arrependimento,
- o amor voluntário,
- a culpa moral,
- e a santidade de Deus.
Conclusão final
Atos autocausados não são impossíveis na Bíblia.
O que é impossível é harmonizar o determinismo causal absoluto com o ensino bíblico sobre responsabilidade, pecado, arrependimento e justiça divina.
A negação dos atos autocausados não é bíblica, mas filosófica — e, como demonstram os autores dos arquivos anexados, gera mais problemas teológicos do que resolve.











