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Histórico do Costume de Apresentação de Bebês na Igreja

Pr. João Flávio Martinez por Pr. João Flávio Martinez
15 de agosto de 2026
em Destaques, Dificuldades Bíblicas, Diversos, Estudos Bíblicos
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A apresentação de bebês é uma prática comum entre igrejas evangélicas que entendem o batismo como uma ordenança destinada àqueles que pessoalmente se arrependem, creem em Jesus Cristo e confessam publicamente a fé. Nessa cerimônia, a criança não é batizada nem considerada salva em virtude de algum rito. Os pais reconhecem que o filho pertence a Deus, agradecem pelo dom da vida e assumem diante da igreja o compromisso de educá-lo nos caminhos do Senhor.

Alguns afirmam que essa prática teria surgido somente na época da Reforma como substituição ao batismo infantil. Entretanto, embora a apresentação em sua forma evangélica atual tenha sido sistematizada e difundida principalmente por anabatistas, batistas e pentecostais, existem antecedentes tanto bíblicos quanto patrísticos de crianças consagradas a Deus sem que isso significasse necessariamente o seu batismo.

1. Antecedentes bíblicos da apresentação de crianças

No Antigo Testamento, Ana apresentou Samuel ao Senhor em cumprimento do voto que havia feito:

«“Por este menino orava eu; e o Senhor atendeu à minha petição que eu lhe tinha feito. Pelo que também ao Senhor eu o entreguei, por todos os dias que viver; pois ao Senhor foi pedido.”
1 Samuel 1.27–28»

Samuel não foi apresentado para receber salvação, mas como reconhecimento de que sua vida pertencia a Deus.

No Novo Testamento, José e Maria levaram Jesus ao templo:

«“E, cumprindo-se os dias da purificação dela, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor.”
Lucas 2.22»

Naturalmente, a apresentação de Jesus estava relacionada às determinações da Lei para os primogênitos e não constitui uma ordenança direta para a Igreja. Contudo, ela expressa um princípio legítimo: os pais reconhecem que os filhos são dádivas de Deus e devem ser criados para a glória dele.

Jesus também recebeu crianças, tomou-as nos braços e as abençoou:

«“E, tomando-as nos seus braços e impondo-lhes as mãos, as abençoou.”
Marcos 10.16»

É significativo que Jesus tenha recebido, abraçado e abençoado as crianças, mas o texto não declara que ele as tenha batizado. A bênção sobre uma criança não deve ser confundida com o batismo cristão.

2. O significado teológico da apresentação

A apresentação de bebês não é sacramento, não transmite regeneração, não remove pecados e não substitui a conversão pessoal. Trata-se de uma cerimônia de gratidão, consagração e responsabilidade.

Nela, três compromissos são publicamente assumidos:

O compromisso dos pais

Os pais reconhecem que o filho é uma dádiva do Senhor:

«“Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre, o seu galardão.”
Salmos 127.3»

Eles se comprometem a ensinar a Palavra, dar exemplo cristão e conduzir a criança ao conhecimento de Cristo:

«“E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te.”
Deuteronômio 6.6–7»

O compromisso da igreja

A igreja compromete-se a acolher a criança, auxiliar sua família, ensinar-lhe as Escrituras e oferecer um ambiente no qual ela possa conhecer pessoalmente o Evangelho.

O reconhecimento da soberania de Deus

A apresentação declara que a criança não é propriedade absoluta dos pais. Ela foi confiada temporariamente à família e deverá ser educada segundo a vontade de Deus.

Assim, a apresentação está mais relacionada à responsabilidade dos adultos do que a uma decisão espiritual atribuída à criança.

3. Por que crianças pequenas não devem ser batizadas?

O padrão encontrado no Novo Testamento apresenta o batismo depois da pregação, do arrependimento e da fé.

No dia de Pentecostes, Pedro declarou:

«“Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo.”
Atos 2.38»

A ordem é: ouvir a mensagem, arrepender-se e ser batizado. O mesmo padrão aparece em outras passagens:

«“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra.”
Atos 2.41»

«“Mas, como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres.”
Atos 8.12»

«“E, indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?”
Atos 8.36»

O batismo pressupõe uma resposta pessoal ao Evangelho. O candidato deve ouvir, compreender, arrepender-se, crer e confessar sua fé. Um bebê não possui capacidade de realizar conscientemente essas coisas.

Na Grande Comissão, Jesus também relacionou discipulado, ensino e batismo:

«“Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado.”
Mateus 28.19–20»

O batismo não é um ato realizado simplesmente porque alguém nasceu em uma família cristã. Ninguém se torna discípulo de Cristo por hereditariedade. A fé dos pais pode influenciar, ensinar e proteger a criança, mas não pode substituir a fé pessoal que ela deverá exercer quando tiver entendimento.

Por isso, a igreja apresenta a criança, ensina-lhe o Evangelho e aguarda o momento em que ela própria possa arrepender-se, crer em Cristo e solicitar o batismo.

4. A Bíblia imputa culpa pessoal aos bebês?

A Bíblia ensina que a entrada do pecado no mundo trouxe corrupção, sofrimento e morte para toda a humanidade:

«“Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens.”
Romanos 5.12»

Os bebês participam das consequências da queda: estão sujeitos à fragilidade, à enfermidade e à morte. Contudo, sofrer as consequências históricas do pecado de Adão não significa que Deus atribua culpa moral pessoal a uma criança incapaz de discernir entre o bem e o mal.

A condenação pessoal está relacionada à prática consciente do pecado:

«“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a maldade do pai, nem o pai levará a maldade do filho.”
Ezequiel 18.20»

Moisés falou de crianças que ainda não possuíam conhecimento moral suficiente:

«“E vossos meninos, de que dissestes: Por presa serão; e vossos filhos, que hoje nem bem nem mal sabem, eles ali entrarão.”
Deuteronômio 1.39»

De maneira semelhante, Isaías descreve um período da infância anterior à capacidade de rejeitar conscientemente o mal e escolher o bem:

«“Porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, será desamparada a terra de que te enfadas.”
Isaías 7.16»

Esses textos indicam uma fase real de inocência moral ou ausência de responsabilidade consciente. A criança nasce inserida em uma humanidade caída e necessitada da graça de Cristo, mas Deus não a julga como se tivesse praticado uma rebelião consciente.

Não estamos afirmando que uma criança seja salva por uma inocência independente da graça. Toda salvação é fundamentada na obra de Cristo. Estamos afirmando que a graça de Cristo alcança aqueles que ainda não possuem capacidade de exercer fé consciente, e que Deus não imputa culpa pessoal onde ainda não existe discernimento moral.

5. “Dos tais é o Reino dos céus”

Jesus demonstrou uma consideração especial pelas crianças:

«“Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos tais é o Reino dos céus.”
Mateus 19.14»

Em outra ocasião, declarou:

«“Qualquer que não receber o Reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele.”
Marcos 10.15»

Essas palavras não devem ser esvaziadas. Jesus não apresentou as crianças como pequenas condenadas que necessitavam receber imediatamente um sacramento para escapar da perdição. Ao contrário, ele as acolheu e declarou que delas — e daqueles que recebem o Reino como elas — é o Reino de Deus.

Jesus também advertiu:

«“Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus.”
Mateus 18.10»

Quando Davi perdeu seu filho recém-nascido, expressou a esperança de reencontrá-lo:

«“Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim.”
2 Samuel 12.23»

Essas passagens fornecem uma base sólida para confiarmos que crianças que morrem antes de possuir capacidade moral são recebidas pela misericórdia de Deus, não por causa de batismo, apresentação ou mérito próprio, mas pelos benefícios da obra de Cristo.

A apresentação, portanto, não é realizada para garantir a salvação da criança. Ela expressa a confiança de que os pequeninos estão sob o cuidado justo e misericordioso de Deus.

6. Antecedentes patrísticos da apresentação de crianças

Historicamente, a Igreja antiga conheceu tanto o batismo de crianças quanto a dedicação e a inscrição de crianças não batizadas no catecumenato. Por isso, não podemos dizer que todos os cristãos dos primeiros séculos batizavam automaticamente seus filhos recém-nascidos.

Tertuliano

Por volta do ano 200, Tertuliano recomendou que o batismo das crianças fosse adiado até que elas crescessem, aprendessem e fossem capazes de conhecer a Cristo:

«“Deixai-as vir enquanto crescem; deixai-as vir enquanto aprendem, enquanto são ensinadas para onde estão vindo; que se tornem cristãs quando forem capazes de conhecer a Cristo.”»

Tertuliano chegou a perguntar:

«“Por que a idade inocente se apressa para a remissão dos pecados?”»

Embora suas palavras demonstrem que o batismo infantil já existia e que ele não o considerava necessariamente inválido, sua preferência era pelo batismo posterior à instrução e à resposta consciente (“Tertuliano, Sobre o Batismo, 18” (https://www.newadvent.org/fathers/0321.htm)).

Gregório de Nazianzo

Gregório relata que sua mãe o prometeu a Deus antes de seu nascimento e o dedicou imediatamente após nascer. Entretanto, Gregório não foi batizado quando bebê, mas somente na idade adulta.

Ele também recomendou que, fora de situações de perigo de morte, se aguardasse até que a criança pudesse ouvir e responder alguma coisa sobre o mistério cristão. Isso comprova que sua dedicação infantil era distinta do batismo.

Basílio de Cesareia

Gregório de Nazianzo afirmou que Basílio foi consagrado a Deus desde o ventre materno e apresentado no altar quando criança. Mais uma vez, encontramos uma forma de consagração infantil distinta do batismo cristão.

Agostinho de Hipona

Agostinho relata que, desde a infância, recebeu o sinal da cruz, foi acolhido como catecúmeno e teve o nome de Cristo colocado sobre ele. Quando ficou gravemente doente, sua mãe considerou batizá-lo; com sua recuperação, o batismo foi adiado.

Agostinho somente seria batizado por volta dos 32 anos. Sua experiência demonstra que uma criança podia ser consagrada, marcada como pertencente à comunidade cristã e instruída na fé sem receber imediatamente o batismo.

Cirilo de Alexandria

Cirilo de Alexandria, no início do século V, menciona duas unções diferentes que poderiam ocorrer quando um recém-nascido fosse levado à igreja: uma relacionada ao ingresso no catecumenato e outra relacionada ao batismo.

Essa distinção mostra que havia crianças apresentadas e recebidas como catecúmenos sem serem necessariamente batizadas naquele momento.

Uma pesquisa acadêmica reuniu testemunhos de Tertuliano, Gregório de Nazianzo, Basílio de Cesareia, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Cirilo de Alexandria, mostrando que formas de dedicação infantil e ingresso no catecumenato estavam presentes em diferentes regiões da Igreja antiga, especialmente durante o século IV (“Andrew Messmer, “Infant Dedication in the Early Church”” (https://jebs.eu/ojs/index.php/jebs/article/download/1064/872/3323)).

7. A apresentação moderna e os antecedentes patrísticos

Não devemos afirmar que a cerimônia evangélica atual seja exatamente igual às práticas patrísticas. Na Igreja antiga, a dedicação poderia incluir o sinal da cruz, unção, imposição do nome de Cristo e inscrição formal no catecumenato.

A forma moderna da apresentação foi organizada e difundida especialmente pelas tradições credobatistas como alternativa ao batismo infantil. Porém, seu princípio fundamental possui antecedentes mais antigos: crianças eram consagradas a Deus, acolhidas pela comunidade e instruídas na fé, permanecendo sem batismo até uma etapa posterior.

Portanto, historicamente, a melhor conclusão é:

«A apresentação de bebês, em sua forma evangélica atual, foi sistematizada e difundida pelas tradições credobatistas como alternativa ao pedobatismo. Entretanto, ela possui antecedentes patrísticos na dedicação, consagração e inscrição de crianças não batizadas no catecumenato.»

Conclusão

A apresentação de bebês é uma prática bíblica em seus princípios, embora não seja uma ordenança expressamente instituída por Cristo. Ela não salva, não regenera, não remove pecado e não substitui a conversão pessoal.

Apresentamos nossos filhos porque reconhecemos que são dádivas de Deus; porque desejamos consagrá-los ao Senhor; porque os pais e a igreja assumem o compromisso de lhes ensinar o Evangelho; e porque aguardamos o momento em que, alcançando entendimento, eles próprios poderão arrepender-se, confessar sua fé em Cristo e receber o batismo.

Crianças pequenas não devem ser batizadas porque o batismo neotestamentário pressupõe arrependimento, fé e confissão pessoal. Elas também não devem ser consideradas pessoalmente condenadas por pecados que ainda não possuem capacidade de compreender ou praticar conscientemente. Estão sujeitas às consequências da queda, mas são acolhidas pela graça e pela misericórdia daquele que declarou:

«“Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos tais é o Reino dos céus.”
Mateus 19.14»

Assim, não batizamos nossos bebês para tentar torná-los pertencentes ao Reino. Nós os apresentamos ao Senhor, confiando na palavra de Jesus de que dos tais é o Reino dos céus, e assumimos o compromisso de conduzi-los ao dia em que poderão pessoalmente confessar: Jesus Cristo é o meu Senhor e Salvador.

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