Introdução
As Testemunhas de Jeová são frequentemente apresentadas por seus adeptos como um movimento restauracionista, surgido diretamente da Bíblia, sem vínculos reais com outros grupos religiosos. Contudo, uma análise histórica honesta revela um quadro muito diferente.
Este artigo demonstra, com base em documentos históricos, fontes adventistas, publicações antigas e material apologético, que Charles Taze Russell (1852–1916) — fundador do movimento que deu origem às Testemunhas de Jeová — esteve profundamente envolvido com o Adventismo do século XIX, absorvendo suas doutrinas, métodos e expectativas proféticas.
Embora Russell nunca tenha sido membro formal da Igreja Adventista do Sétimo Dia, sua teologia nasceu, desenvolveu-se e amadureceu dentro do ambiente adventista pós-milerita, o que invalida a narrativa de origem “independente” defendida pela Torre de Vigia.
1. O contexto histórico: William Miller e o adventismo
O ponto de partida inevitável é o movimento milerita, liderado por William Miller, que anunciou a volta de Cristo para 1843–1844, com base no princípio do “dia-ano” aplicado a Daniel 8:14.
Após o Grande Desapontamento de 1844, o movimento adventista fragmentou-se em diversos ramos, entre eles:
- Adventistas sabatistas (que dariam origem à IASD)
- Adventistas não sabatistas
- Adventistas espiritualistas
- Grupos independentes de cronologistas proféticos
É nesse ambiente de recalculações proféticas, especulações cronológicas e expectativas frustradas que surge Charles Taze Russell.
Documentos históricos mostram que o russelismo herdou diretamente:
- O método profético milerita
- A centralidade de Daniel e Apocalipse
- O uso obsessivo de datas
- A crença em uma parousia cronologicamente calculável
(Fonte: História das Testemunhas de Jeová – Revista A Sentinela, jul. 1974)
2. Jonas Wendell: o pregador adventista que influenciou Russell
Um dos vínculos mais claros entre Russell e o Adventismo é o pregador adventista Jonas Wendell, de Edinboro, Pensilvânia.
Wendell:
- Era seguidor do espírito milerita
- Defendia datas como 1873 e 1874 para a volta de Cristo
- Ensinava escatologia baseada em cálculos proféticos
- Pregava intensamente no nordeste dos EUA
Registros históricos afirmam que uma pregação de Jonas Wendell foi decisiva para restaurar a fé de Russell na Bíblia, levando-o a ingressar no estudo profético adventista.
Ou seja, Russell foi teologicamente despertado por um pregador adventista, não por um estudo independente das Escrituras.
3. Nelson H. Barbour: Russell dentro do adventismo cronológico
O envolvimento de Russell com o Adventismo torna-se ainda mais evidente em sua associação com Nelson H. Barbour, um conhecido líder adventista e editor da revista Herald of the Morning.
Em 1876:
- Russell conhece Barbour
- Ambos passam a ensinar que Cristo já havia retornado invisivelmente em 1874
- Defendem a data 1914 como o fim dos “Tempos dos Gentios”
- Russell financia publicações adventistas e participa ativamente do movimento
A própria literatura histórica afirma:
“O encontro com Nelson Barbour constituiu, sem dúvida, um divisor de águas na carreira de Russell.”
Durante esse período, Russell estava plenamente inserido no adventismo não sabatista, adotando suas principais teses escatológicas.
4. Russell foi Adventista do Sétimo Dia?
Aqui é necessária precisão histórica.
Não, Charles Taze Russell nunca foi membro formal da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Entretanto, isso não o isenta de sua identidade adventista doutrinária.
Os fatos demonstram que Russell:
- Compartilhava o mesmo método profético adventista
- Aceitava datas formuladas por líderes adventistas
- Rejeitava o inferno eterno (doutrina adventista)
- Criou sua escatologia a partir de bases adventistas
Portanto, embora não fosse ASD institucional, Russell foi adventista em essência teológica e metodológica.
5. Datas adventistas absorvidas por Russell
As datas centrais do russelismo não foram revelações originais, mas heranças diretas do adventismo:
| Data | Origem Adventista | Uso por Russell |
|---|---|---|
| 1844 | William Miller | Base escatológica |
| 1874 | Wendell / Barbour | “Presença invisível de Cristo” |
| 1878 | Barbour | Ressurreição dos santos |
| 1914 | Adventismo | Fim dos Tempos dos Gentios |
Essas datas continuaram sendo usadas, reinterpretadas e recicladas pela Torre de Vigia, mesmo após seus repetidos fracassos proféticos.
6. O rompimento com o adventismo e a continuidade do erro
Embora Russell tenha rompido pessoalmente com Barbour e com outros líderes adventistas, ele não abandonou o sistema.
Pelo contrário:
- Manteve o método cronológico
- Preservou as datas proféticas
- Conservou a estrutura escatológica
- Apenas substituiu a autoridade coletiva pela sua própria
O russelismo não é uma ruptura com o adventismo, mas uma mutação do adventismo, centralizada na figura de Russell.
7. As Testemunhas de Jeová como fruto do adventismo
O Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP) tem demonstrado historicamente que:
- As Testemunhas de Jeová são filhas do adventismo do século XIX
- Russell herdou erros, não verdades
- O problema não é apenas Russell, mas a cadeia histórica de falsas profecias
As Testemunhas de Jeová não surgiram da Sola Scriptura, mas de especulações escatológicas fracassadas.
Conclusão
À luz da documentação histórica, pode-se afirmar com segurança:
- Charles Taze Russell foi profundamente influenciado pelo Adventismo
- Foi discipulado indiretamente por William Miller
- Foi influenciado diretamente por Jonas Wendell e Nelson H. Barbour
- Herdou datas, métodos e doutrinas adventistas
- Criou o russelismo como um desdobramento do adventismo
- As Testemunhas de Jeová são, historicamente, um fruto do adventismo do século XIX
Isso desmonta a narrativa da Torre de Vigia e confirma que não houve restauração bíblica, mas continuidade de erro.
“Porque eles dizem: Temos visões; mas não falam da parte do SENHOR” (Jr 23:16).
📌 Referências
- História das Testemunhas de Jeová – Pode-se Ser Fiel a Deus, Todavia Ocultar os Fatos? – A Sentinela, jul. 1974
- BARBOUR, N. H. Herald of the Morning
- Documentos biográficos sobre Jonas Wendell
- Artigos históricos e apologéticos – Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP)










