Alguns defensores do calvinismo tentam afirmar que essa posição teológica é a única que representa a fé cristã ortodoxa, desqualificando outras perspectivas — especialmente a teologia arminiana — como se estas fossem heterodoxas ou heréticas. Essa estratégia retórica funciona porque ninguém quer ser rotulado como “não ortodoxo”, e assim o calvinismo acaba sendo colocado como padrão único de ortodoxia — e, por consequência, de verdade.
Mas essa visão é historicamente e teologicamente questionável.
1. A patrística cristã é majoritariamente anti-calvinista
Quando se olha para os Pais da Igreja dos primeiros séculos, nota-se que a maioria não defendia os ensinamentos calvinistas clássicos como nós os conhecemos hoje. Na verdade, antes da controvérsia de Agostinho em relação ao livre-arbítrio, a tradição cristã antiga via a relação entre salvação, graça e livre-arbítrio de maneira diferente do calvinismo estrito. A própria figura de Agostinho passou por mudanças ao longo de sua vida teológica, e sua visão não foi unânime entre os escritores antigos.
2. A acusação de heterodoxia é usada como artifício
Calvinistas por vezes listam teólogos arminianos ao lado de nomes indiscutivelmente ortodoxos para depois dizer que os calvinistas são mais fiéis à tradição. No entanto, isso é uma tática argumentativa falha, pois simplesmente colocar nomes em uma lista não comprova que uma linha teológica seja mais verdadeira ou que outra seja herética. Existem autores profundamente respeitados que não seguem o calvinismo e ainda assim têm grande reconhecimento na história da fé cristã.
3. A tradição cristã pré-Reforma não foi dominada pelo calvinismo
Até a Reforma Protestante, não havia um sistema calvinista claramente estabelecido nos primeiros 1500 anos da Igreja. Os textos antigos não mostram pessoas afirmando as cinco teses do calvinismo (os pontos da TULIP) como uma identidade teológica estabelecida. Isso indica que o calvinismo, tal como hoje é conhecido, não era o padrão universal de fé antes do século XVI.
4. O debate não é definido por nomes famosos
É comum que defensores de qualquer posição teológica apontem figuras importantes para sustentar sua ortodoxia (por exemplo, Spurgeon e outros reformadores no caso calvinista). Mas isso não prova que uma linha seja intrinsecamente correta: outras tradições também têm grandes pensadores — alguns reconhecidos internacionalmente — que não aceitam o calvinismo e ainda assim defendem a fé cristã dentro da tradição reformada ou evangélica mais ampla.
Conclusão em termos gerais
A alegação de que o calvinismo é a única posição ortodoxa possível não se sustenta quando consideramos a história da Igreja, a patrística e a diversidade teológica dentro do cristianismo histórico. Não há base suficiente para excluir outras perspectivas — como a arminiana — da categoria de “ortodoxia cristã”.








