A plenitude da promessa de Cristo levar nossas enfermidades aponta para a consumação futura, embora a obra que garante essa libertação já tenha sido realizada na cruz.
1. O texto fundamental: Isaías 53
Isaías profetiza:
“Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si…”
Isaías 53:4
E acrescenta:
“…pelas suas pisaduras fomos sarados.”
Isaías 53:5
O erro de algumas interpretações é concluir: “Se Cristo levou nossas enfermidades, então todo cristão tem direito à cura física agora.” Isso não decorre necessariamente do texto. A questão é saber quando todos os benefícios da expiação são plenamente consumados.
2. Mateus 8 mostra uma antecipação do Reino
Mateus aplica Isaías 53:4 às curas realizadas por Jesus:
“Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças.”
Mateus 8:16-17
Observe um detalhe decisivo: isso acontece antes da cruz. Portanto, Mateus não está ensinando que a expiação garante cura imediata e universal a todo crente. As curas de Jesus eram sinais da chegada do Reino e antecipações daquilo que será pleno na consumação.
Jesus curava enfermos, mas aquelas pessoas continuavam mortais. Até quem foi ressuscitado por Cristo, como Lázaro, voltou posteriormente a morrer.
3. Paulo coloca a redenção do corpo no futuro
Este é provavelmente o texto mais forte:
“…nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.”
Romanos 8:23
Paulo escreve para pessoas já salvas e possuidoras do Espírito Santo, mas elas ainda:
gemem → aguardam → a redenção do corpo.
Portanto, existe uma tensão escatológica entre o “já” e o “ainda não”.
Cristo já conquistou a redenção, mas ainda não recebemos todos os seus efeitos em sua forma definitiva.
4. A ressurreição é quando a vitória física se torna completa
Paulo explica:
“Semeia-se em corrupção, ressuscitará em incorrupção.”
1 Coríntios 15:42
E:
“Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade.”
1 Coríntios 15:53
Nosso corpo atual continua sujeito a doença, envelhecimento, fraqueza e morte.
Na glorificação, isso termina definitivamente.
Assim, poderíamos formular:
A cruz adquiriu a redenção do corpo; a ressurreição aplicará essa redenção em sua plenitude.
5. O próprio Novo Testamento mostra cristãos enfermos
Se Isaías 53 significasse que todo cristão deve necessariamente estar fisicamente curado nesta era, seria difícil explicar:
- Timóteo tinha enfermidades frequentes — 1Tm 5:23;
- Trófimo foi deixado doente em Mileto — 2Tm 4:20;
- Epafrodito esteve gravemente enfermo, quase à morte — Fp 2:25-27;
- Paulo fala do nosso corpo como sujeito à fraqueza — 2Co 4:16; 5:1-4.
Esses textos mostram que enfermidade não significa ausência de fé nem fracasso da obra de Cristo.
6. Apocalipse mostra quando a promessa alcança sua plenitude
Na consumação:
“E Deus limpará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor…”
Apocalipse 21:4
Aqui está o estado no qual a enfermidade finalmente desaparece de maneira universal, definitiva e irreversível.
Conclusão hermenêutica
Podemos resumir assim:
Isaías 53:4-5 → Cristo assume nossa condição caída e garante nossa redenção.
Mateus 8:16-17 → as curas de Jesus antecipam os poderes do Reino.
Romanos 8:23 → a Igreja ainda aguarda a redenção do corpo.
1 Coríntios 15:42-54 → essa redenção física se completa na ressurreição/glorificação.
Apocalipse 21:4 → no estado eterno não haverá mais dor nem morte.
Portanto, a cura física pode ser experimentada hoje pela graça e pelo poder de Deus, e devemos orar pelos enfermos (Tg 5:14-16), mas a Bíblia não promete ausência universal de enfermidades nesta presente era.
A promessa definitiva não é simplesmente: “o cristão nunca ficará doente”, mas algo muito maior:
Cristo redimiu o homem por inteiro. A alma já desfruta da salvação, enquanto o corpo ainda aguarda sua glorificação. Na ressurreição, aquilo que Cristo conquistou será plenamente manifestado: não apenas corpos curados, mas corpos incorruptíveis, imortais e glorificados (Rm 8:23; 1Co 15:42-54; Fp 3:20-21).











